Histórias da Folha
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de julho de 1998
Jota Oliveira 
Quase todo ano alguma geadinha beirava ou entrava nos cafezais norte-paranaenses, principalmente nas baixadas, lugares mais sujeitos ao fenômeno. Coisa em geral fraca, mas preocupante. Em 5 de julho de 53, geara forte na região de Londrina, prejudicando algumas lavouras. Agora, num final de tarde, o vento frio parecia indicar uma geada negra. Empresários e outros associados conversavam no Londrina Country Club. Mostravam fisionomias desanimadas, e iam além:
- Assim não dá. Vou-me embora. Tenho parentes em Campinas, estabeleço-me lá...
- Eu também não aguento mais essa tensão. Todo ano ameaça de geada...
Fora, o tempo parecia esfriar, as folhas dos cafeeiros começavam a murchar. Dentro, ânimos já murchos. Uma voz discordou dos desanimados:
- Eu fico aqui mesmo. Não tem lugar igual a Londrina. Não é uma geada que me faz ir embora...
Era João Milanez, que há poucos anos fundara a Folha. Lá, fora do clube, a cara do tempo começava a mudar. Nuvens cobriam a região cafeeira, como um cobertor que não deixava o calor sair para o espaço. A geada não veio. No dia seguinte, aqueles empresários, de ânimo novo, já tinham se esquecido de que na véspera estavam dispostos a ir embora. Eles sofreriam, em outros anos, geadas de fato. Mas já estariam acostumados àquela ameaça permanente. Hoje, embora reduzido a uma fração do que era, o café está voltando. Já não se planta mais nas baixadas, nem na face sul do morro.
Aeroporto interditadoMaio de 1954. Um funcionário (não identificado pelo jornal) do Ministério da Aeronáutica interdita mais uma vez o aeroporto de Londrina, um dos mais movimentados do Brasil. A Folha toma partido, participa da revolta dos usuários com a interdição, que não fora bem explicada. Um repórter, que acabou no anonimato perante a história (naquele tempo eram raras as matérias assinadas), mostra na primeira página até que ponto o jornal se envolve. Primeiro, o título denunciador: Foi de molde a ocasionar sérios prejuízos/o mandado de interdição do aeroporto.
O jornalista tinha ido conferir se havia motivos para a interdição. Concluiu: ...não atinamos com os motivos de ordem técnica que teriam levado aquela autoridade a tomar tal providência...Numa região de vida profusa como a nossa, cujo dinamismo não pode prescindir da aviação comercial, para o atendimento a suas necessidades naturais, diuturnas e superiores, é de se exigir que os órgãos competentes como o Ministério da Aeronáutica envidem o máximo de esforços para manter, com a regularidade possível, o tráfego aéreo entre nossa região e as outras a que está ligado por linhas de diversas companhias de aviação comercial...
Meton Araújo de Souza, naquele tempo comerciante, hoje conhecido técnico em homeopatia, enviava carta à Associação Comercial (publicada com destaque pela Folha), pedindo ao presidente da instituição que interferisse junto às autoridades responsáveis, para que fosse suspensa a interdição do aeroporto.
No mesmo mês (maio de 54), a Colonizadora Brasil Central Ltda. anunciava terras fertilíssimas para café e cereais no município de Rosário do Oeste, Mato Grosso. Para conhecer aquelas terras, vendidas a CR$ 1.500,00 (mil e quinhentos cruzeiros) o alqueire, só mesmo de avião. E o aeroporto de Londrina estava interditado!


