A historiadora Daniela Reis de Moraes, que escreveu sua tese de mestrado sobre os Cinco Conjuntos, possui uma relação afetiva com a região norte de Londrina. Foi lá que ela cresceu. Segundo ela, a construção está ligada ao ex-prefeito Antônio Belinati, já que foi em uma de suas gestões que as unidades habitacionais foram erguidas. No entanto, o programa habitacional era federal. "A zona 157 definiu muitas eleições de Londrina. Era sempre a última a ser aberta", aponta ela.

Ela observa que muitas casas foram entregues com problemas, como paredes com rachaduras e sem água encanada. "Alguns moradores tinham que se dirigir até uma torneira pública para conseguir água", exemplifica, ressaltando que os problemas se concentravam principalmente no Aquiles Stenghel e no Semíramis. "Quando chovia a água entrava nas casas, e isso afetava a estrutura das casas. Era bem complicado. Algumas até chegaram a desabar por conta disso", afirma.

A pesquisadora também critica a falta de relação histórica com a cidade na hora de denominar os conjuntos e as vias da região. "A maior parte não tem relação com as pessoas que viviam na região, mas a pessoas ligadas ao BNH e ao DER (Departamento de Estradas de Rodagem). O conjunto Maria Cecília Serrana, por exemplo, é em homenagem à filha de um secretário do BNH. E a avenida Saul Elkind foi para homenagear o pai do David Elkind, que fez o entorno urbano da Rodoviária.O mais incrível é que circula no imaginário popular que Saul foi o primeiro morador daqui. Quando eu perguntava para as pessoas todos falam com propriedade que era isso, mas é algo que não corresponde à realidade."

Mesmo assim, ela observa que a avenida Saul Elkind é algo bastante presente em suas lembranças. "Eu tenho uma memória forte dos comícios, das eleições. Me recordo do tempo de criança da apresentação do Chitãozinho e Xororó, com milhares de pessoas assistindo e ambulantes vendendo sorvete, pirulito e algodão-doce. Nem sabia o que estava acontecendo, mas era um evento", relata. "Eu tinha que atravessar a Saul Elkind para ir à escola. Estudava no Colégio Estadual Ubedulha de Oliveira, uma das escolas mais periféricas da região, e tinha um estigma muito grande pois era o colégio mais próximo do fundo de vale. Para quem é estudante do Colégio Estadual Olímpia Moraes Tormenta, o status era outro. Esse relacionamento com a Saul Elkind me permitiu perceber o crescimento dos Cinco Conjuntos.Tenho 32 anos vividos em uma região que tem 40 anos", declara.

PERFIL
Sobre o perfil dos moradores, ela explica que a região começa inicialmente com moradores mais pobres e posteriormente passa para a classe média. "Hoje temos a classe média alta nos Cinco Conjuntos. O preço dos imóveis aumentou absurdamente, principalmente no entorno da avenida Saul Elkind, ou seja, dentro do próprio Cinco Conjuntos há segregação imobiliária. A partir da década de 1990 começa-se a investir em habitações verticais, edificadas por construtoras particulares", destaca.

Ela relata que uma das maneiras dos moradores demonstrarem sua ascensão social era a mudança do telhado. "As casas eram todas iguais e e uma das coisas que as pessoas faziam era 'puxar' a casa até o limite do muro. Essa expansão era necessária, porque os filhos cresciam e casavam e o 'puxadinho' do fundo da casa ficou muito popular. Outra forma de 'ascensão social' era a troca do telhado para a telha romana. Meu pai é calheiro, e o período que ele mais prosperou foi nas décadas de 1980 e 1990, quando as pessoas 'viravam' o telhado e era preciso fazer o rufo e trocar as calhas. Eu sempre digo ao meu pai que ele participou do processo histórico dos Cinco Conjuntos", afirma. (V.O.)

mockup