A presença do mal nunca ficou de fora da pregação católica. A historiadora Fátima Fernandes, da Universidade Federal do Paraná, acrescenta que todas as encíclicas papais sempre fizeram alguma referência ao elemento maligno. ‘‘Por isso não é surpresa a reedição do manual de exorcismo do Vaticano’’, avalia ela, que é especialista em História Medieval. ‘‘A novidade seria talvez o objetivo: de se aproximar do cristão enfrentando as novas igrejas evangélicas, que adotam o discurso do demônio em suas pregações’’, comenta.
A historiadora entende que essa medida seria para reavivar o discurso da instituição católica. Ela entende que existe coerência na renovação do exorcismo. ‘‘O discurso mudou, mas a posição da Igreja frente ao diabo continua a mesma’’, diz. De um lado estaria o bem; do outro, o mal. ‘‘Este conflito é fundamental para o dogma da Igreja e também de outras religiões, como a judaica’’, diz, acrescentando que o exorcismo é descrito diversas vezes na Bíblia.
Fátima considera que a retomada do discurso, há muito tempo não proferido, serviria também para balizar o dogma nesta virada do milênio. ‘‘Esta nova sinalização mostra também a postura do atual papa, João Paulo II, que é mais ortodoxa’’, afirma.
Para ela, o grande problema desse pensamento é a interpretação de quem identifica o demônio. ‘‘A corporização do demônio durante a história da Igreja serviu muitas vezes para consolidar o poder da Igreja’’, afirma, citando como exemplo a época da inquisição e da Idade Média.
Fátima afirma que o poder maior da inquisição não se estabeleceu na Idade Média, mas na Idade Moderna, durante os séculos 15 e 17. ‘‘Nesta época, a Igreja se volta a todos que fazem alguma oposição as suas idéias’’, diz. Os alvos da perseguição são judeus, cristão novos e pensadores com visões diferentes do mundo.
A historiadora descreve que esse processo serviu na formação da Igreja Católica por dois motivos. Primeiro tinha um papel religioso muito importante, pois estabelecia uma moral forte e rígida. No ponto político, possibilitou o fortalecimento do poder, com a retirada do mapa dos opositores. Outros ponto positivo foi a acumulação de capital, já que o primeiro castigo era a retirada dos bens.

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