História sob a ótica das lentes
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de dezembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Jânio Quadros foi muito bem humorado na carta de dois de março de 1975 em resposta ao oftalmologista Rubem Nogueira de França. Pede pouco. Na política pretenderam arrancar-me os olhos, escreveu, a mão, o ex-presidente. Os óculos de Jânio são os de número 04 na coleção com mais de cem modelos que França guarda nas duas cristaleiras de seu consultório.
Sou vidrado em coleções, explica. O hábito vem desde as figurinhas de balas Zequinha da infância e se estende aos quatro telefones antigos que guarda na sala situada na região central de Curitiba onde atende seus pacientes há 50 anos. Um dos aparelhos, nas suas palavras o primeiro modelo a disco utilizado na cidade, é o que usa para receber ligações. Em meio a antiguidades, guarda um celular no bolso e afirma se dar bem com as novas tecnologias. Mandei um e-mail para o Presidente Lula pedindo um par de óculos, mas ele nunca me deu bola, conta, notadamente chateado. Mesmo o presidente (Gerald) Ford, dos Estados Unidos me respondeu, lembra o oftalmologista ao apontar para uma carta com a chancela da Casa Branca com uma simpática recusa. França, médico desde 1945, tem 85 anos.
Sua coleção tem data de início: 27 de novembro de 1972, quando chegou uma correspondência de Ney Braga acompanhada do que seria o primeiro par de óculos do pequeno museu particular. No texto, o ex-governador assumia a culpa pela feiúra na escolha do aro e lembrava que as lentes tinham sido receitadas pelo próprio médico. O Ney era meu cliente e pedi para ele que me desse seus óculos. Naquele momento, já pensava em fazer uma coleção, diz.
Ainda na década de 1970, recebeu de Alfredo Andersen a doação de dois modelos, um datado de 1860 e outro apontado como sendo de fins do Século XVIII ou início do seguinte, o mais antigo dos guardados nas cristaleiras.
Sob o título Óculos de Personalidades: personagens ilustres e outros, o médico guarda um caderno com o registro das datas em que recebeu os objetos. Nas páginas, escreveu a mão pequenas biografias sobre os donos dos óculos. Em uma pasta guardada no mesmo armário estão as cartas com as respostas aos seus pedidos, algumas das quais chamam o espaço de Museu de Óculos de Curitiba, um nome que, ele diz, não é oficial.
- Contato: - Interessados em doar óculos para a coleção de Rubem Nogueira
de França devem ligar para (41) 3222-0050, em horário comercial.


