Ao morrer, em 13 de julho passado, aos 98 anos, o advogado Lícínio Barbosa era, em Londrina, a última memória viva de Manoel Ribas, a quem recordava principalmente pela sensação de poder que transmitia aos subordinados. ‘‘Lembre-se, ninguém manda mais no Brasil do que o doutor Getúlio Vargas’’, reafirmava o interventor da Revolução de 1930 e do Estado Novo no Paraná, segundo Lícínio.
  Exceto por 30 meses, tempo da ‘‘abertura’’ constitucional que precedeu o Estado Novo, nos 13 anos que governou, Ribas podia nomear todos os prefeitos, concedendo-lhes ‘‘todas as funções executivas e legislativas’’, e exonerá-los quando julgasse conveniente. Apelidaram-no ‘‘Mané Facão’’, pelo rigor no ajuste da máquina administrativa.
  Já formado em Direito, Licínio Barbosa viera a Londrina pela primeira vez em 1943, na condição de delegado especial de polícia designado pelo Ribas.
  Há 80 anos, a Revolução eclodiu a 3 de outubro e terminou a 24, com a deposição do presidente Washington Luís de Sousa. A posse de Getúlio Vargas se deu em 3 de novembro. Nesse período não se menciona Manoel Ribas e os personagens principais do Paraná são os generais e irmãos Plínio e Mário Tourinho.
  Já em 5 de outubro Getúlio Vargas anotara no diário ‘‘uma boa notícia’’, a adesão das forças da 5ª Região Militar, em Curitiba, conforme telegrama do major Plínio Tourinho, ‘‘meu antigo condiscípulo da Escola Militar e oficial do estado-maior da região’’.
  Dois interventores teve o Estado - Mário Tourinho e o engenheiro João Pernetta - até o repentino aparecimento de Ribas. Anotações de Vargas de 2 a 6 de janeiro de 1932: ‘‘Combino com o ministro da Justiça organizar a Comissão de Estudo dos Litígios de Limites Estaduais, a regulamentação da lei que extingue os impostos interestaduais e a nomeação de Manoel Ribas para interventor no Paranᒒ.
  Nascido em Ponta Grossa, em março de 1873, de uma tradicional família, Ribas seria ‘‘recambiado’’ do Rio Grande do Sul, para onde tinha ido em 1897, destacando-se na organização da Cooperativa dos Empregados na Viação Férrea e a seguir eleito prefeito de Santa Maria, em 1927. Seu prestígio com Vargas seria decorrente, também, de apoio financeiro, faz presumir o relato de Dionísio Striquer na monografia de Maria do Carmo Pereira ao Curso de Bacharelado em História da UEL (2002).
  Sobre um de seus mandatos de prefeito em Jataizinho, Striquer recordou uma audiência no palácio do governo em que Ribas, esquivando-se das reivindicações, ‘‘ficou duas horas falando da vida dele, como começou, criando porcos no Rio Grande do Sul, depois formou a cooperativa em Santa Maria e forneceu dinheiro para o Getúlio fazer a revolução’’. Repetia que Vargas ‘‘devia-lhe muito dinheiro’’.
  Sem formação superior, mas reconhecidamente um executivo competente, Ribas respeitou o modelo de colonização do Norte Novo, certo de que mudaria a face econômica do Estado. ‘‘Tu és um louco! O Paraná é o Estado do futuro. O Norte será o celeiro do Brasil e, talvez, do mundo. Tu tens de ficar aqui’’, disse ao médico recém-formado Nelson do Rosário, em 1942, convencendo-o a assumir o distrito sanitário em Londrina, em vez de mudar-se para o Rio Grande do Sul.
  E o interventor tinha ‘‘a mentalidade de cobrar impostos por todas as formas e criar dificuldades sem oferecer pelo menos compensações razoáveis’’, afirma-se em denúncia ao presidente da República na Folha da Manhã, de São Paulo, de 25 de junho de 1939. Sob o título ‘‘Apelo dos Lavradores de Café do Norte Paraná ao Chefe da Nação’’ há uma série de acusações, entre as quais a cobrança de impostos interestaduais vedados pela Constituição.

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