Um histórico de vida complicado é praticamente regra entre as crianças e adolescentes infratores ou em situação de risco. Este é o ''público'' da Vara da Infância e Juventude, comandado pela promotora Édina Maria Silva de Paula em Londrina. Um exemplo típico é de um jovem que completou 18 anos recentemente. Com diversas passagens pela polícia, ele enfrentou inúmeras dificuldades na infância. Apesar de ter atuado por um bom tempo na Associação Guarda Mirim e estudado até o 1 º ano do Ensino Médio, a falta de oportunidades ainda aflige o jovem, como diversos outros brasileiros da mesma faixa etária.
Este ano, o rapaz teve quatro passagens por porte de arma. Também foi apreendido por tentativa de homicídio. No início do mês, foi convocado pela promotora Édina de para prestar depoimento. A conversa, relatada por Édina, mostra a grave situação que a falta de perspectivas e a violência proporcionam entre os jovens de hoje. A frieza impressiona até mesmo quem está acostumado a lidar com a criminalidade rotineiramente.
O diálogo na sala da promotoria foi tenso. Desde o início, ele mostrou-se impaciente com a situação. Agressões gratuitas às instituições foram comuns durante todo o interrogatório. O conhecimento do rapaz sobre leis criminais impressionou a promotora através de um episódio inusitado. Com riqueza de detalhes, a promotora Édina de Paula relata:
''Enquanto eu conversava com ele, minhas estagiárias faziam uma representação e discutiam como enquadrar um caso de porte de arma. Discutindo se era em artigo de arma de uso permitido ou não permitido. Ele, conversando comigo, respondeu para ela o artigo da lei que era'', relata.
Édina também disse ter ficado impressionada com a frieza com que ele confirmou a intenção de assassinar um desafeto. ''Quer dizer que antes de 24 de dezembro você vai matar o Januário. Ele respondeu: Com certeza.'' Após ser liberado, já na porta da sala, ele lançou um olhar considerado ameaçador pela promotora. 'Edina questionou o ''olhar desafiador'' e disse não ter medo de ameaça.
A reação da promotora foi suficente para o desabafo dele. ''A senhora não sabe o que é ter o pai preso desde os 11 anos. Ter a mãe presa duas vezes. A senhora não sabe o que é morar com uma avó que só te trata mal o tempo todo. A senhora não sabe o que é ficar passando de tia em tia, cada hora morando com uma''. E chorou. Ele confirmou para a promotora, em seguida, que o maior problema era a falta de emprego. Apesar de não ter obrigação, Édina tentou arrumar uma colocação para o jovem. No Natal, ao ligar para desejar Boas Festas, a promotora não tinha uma boa notícia: nada de vagas para ele. Por outro lado, ouviu dele uma excelente resolução de Ano Novo: desistiu de matar o desafeto, conta a promotora. (F.R.F.)

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