"Falta água em tanto lugar do mundo e aqui a gente tem essa riqueza", observa Narciso Virgínio Soares
"Falta água em tanto lugar do mundo e aqui a gente tem essa riqueza", observa Narciso Virgínio Soares | Foto: Gina Mardones



Nos confins do Parque Ouro Branco, na zona sul de Londrina, uma pequena venda de madeira esconde um tesouro. Atrás do balcão improvisado onde o aposentado Narciso Virgínio Soares, 68, vende a produção própria de banana, verduras e sabão, há uma mina d'água que escoa milhares de litros por dia. Ele é o guardião das águas que, sozinho, construiu uma estrutura para mantê-las correntes. "Falta água em tanto lugar do mundo e aqui a gente tem essa riqueza", conta Soares, com lágrimas nos olhos ao lembrar que mantém uma preciosidade no quintal de casa.

Ex-motorista de ônibus, ele chegou ao Ouro Branco em 1980, vindo da zona rural. "Saí do sítio, mas ele não saiu de mim", brinca o aposentado, que cultiva frutas e verduras com ajuda de toda a água disponível no terreno. A única ajuda vem do cachorro Ted, que anda na frente do dono e abre as portas para ele passar. "O Ted vai na frente para ver se não tem bicho", explica.

O cão é também o porteiro do "santuário". Soares conta que muita gente da comunidade busca água no local e Ted é o responsável por deixá-los entrar. "Se são pessoas conhecidas, ele libera a passagem. Quando são estranhos, vem logo me chamar", diz.

O aposentado é um homem simples, mas encontrou função no mundo e tem muito orgulho dela. "Aqui não falta água limpa", garante. Pai de três filhos e cinco netos, ele oferece na venda os alimentos que produz, mas não recebe dinheiro de todos que passam por ali. "Se eu vejo que a pessoa precisa, não cobro, falo para pagar depois. O melhor mesmo é ser generoso", diz o homem que ama o seu bairro e nunca pretende se mudar. "É o melhor lugar do Brasil."

HORTA COMUNITÁRIA
A poucos metros da mina, Amaro Barbosa da Silva, 69, é um dos responsáveis pela horta comunitária do bairro. "Cheguei aqui em 1971. Vim de Pernambuco com 4 anos, mas morei muito tempo na fazenda Santa Maria do Bule, em Londrina", lembra. Se formou técnico em eletrônica na cidade e passou parte da vida consertando TVS e outros aparelhos. Mas dos tempos que trabalhou como "boia fria", manteve o gosto por cuidar da terra. "Quem começou a horta foi o senhor Antônio Vilela (que faleceu no final de agosto). Quando ele não conseguia mais cuidar, assumi a responsabilidade", diz.

Há alguns anos, o local foi transformado em horta comunitária. Cada família tem direito a cultivar quatro canteiros. "Nosso compromisso é que seja tudo orgânico e vender mais barato", lembra. Como o vizinho Narciso, ele também doa parte da produção para quem precisa. "Sou motivado por Jesus Cristo", afirma ele, que como "não sabe o dia de amanhã", prefere ser generoso todos os dias.

Há quase 50 anos no Ouro Branco, ele ama o bairro onde criou os filhos e tem os melhores amigos. Por isso, no final do ano, faz questão de pintar as calçadas da rua da horta e deixar o lugar mais bonito. "O bairro onde eu moro é o meu ninho e tem que ficar lindo", avisa.

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