Londrina - O 19 de dezembro é a data maior do Paraná, em que se efetivou a Província, em 1853. Coincidentemente, o algarismo final 3 assinalaria as duas transformações econômicas modernizadoras do Estado. A primeira delas, em 1953, representou a inserção na economia nacional: "Às vésperas do centenário, estamos assumindo a liderança do café, o grande general da política, o que equivale à nossa colocação na vanguarda da vida econômica brasileira", proclamou o governador Bento Munhoz da Rocha Neto.
Nenhum dos ciclos anteriores – o tropeirismo, o da erva-mate e o da madeira – deram relevância ao Paraná, a julgar-se pelo discurso de Bento. Até que chegaram os "brasileiros empurrados pela onda verde dos cafeeiros, que desceram para o sul, vivendo seu ciclo e revolucionando a tradicional (atrasada) economia paranaense", disse o governador em 19 de dezembro de 1953, na saudação ao presidente da República, Getúlio Vargas.
"Curitiba, a caprichosa crioula dos pinheirais", alçou "em ímpetos de grande metrópole" graças ao "providencial Dom Café", que a fez "milionária e bem na moda", escreveu o poeta curitibano Valfrido Piloto.
Vinte anos após o centenário, a cafeicultura em decadência, o governador Pedro Viriato Parigot de Souza anuncia o salto para a industrialização, privilegiando Curitiba, onde a continuidade de investimentos jamais cessaria, sem nenhum programa similar no interior.

Cidades novas
"A época do centenário de nossa Província coincide com o início de uma fase áurea da vida do Paraná, cuja escala de crescimento vai diferençar-se de tudo quanto até agora se consagrou como grande progresso", sentenciou o governador Bento Munhoz no centenário. "Pela primeira vez, os problemas paranaenses são, acima de tudo, problemas brasileiros, repercutindo intensamente em toda a Nação."
Ostentando a condição de segundo produtor brasileiro de café (533 milhões de pés dos quais 280 milhões em produção), o Paraná colhera cinco milhões de sacas no valor de 325 milhões de dólares, equivalentes a 1,85 bilhão de cruzeiros; sua população evoluíra de 1,236 milhão de pessoas em 1940 pra 2,149 milhões em 1950 e do acréscimo, mais de 913 mil ao Norte. Graças ao café, os municípios aumentaram de 28 na década de 1930 para 80 em 1950.
"Com o apoio em Londrina, as ondas de povoamento partiram em várias direções, a derrubar as matas, plantando cidades novas", relatou Rubem Braga. "Londrina está cheia de prédios novos — e os edifícios de cimento armado, de linhas modernas, crescem em vários pontos", observou o cronista em 1952, contratado pelo Estado para escrever. "A cidade tem todo o conforto, tem vida noturna com damas cariocas, argentinas e uruguaias, tem boate, pode chamar cantores internacionais que não vão a Curitiba — e também uma das maiores criminalidades do mundo."
A indústria era até dispensável, no entender de Bento: "Outros Estados estão possuídos da febre de industrialização. Que vale a indústria sem a agricultura? É aqui, portanto, que se está jogando o nosso futuro."
Toda a euforia do café o governador materializou em Curitiba, na comemoração do centenário, de 29 de agosto de 1953 a 21 de janeiro de 1954, ao encerrar-se o 1º Congresso Mundial do Café, com representantes de 35 países e que recebeu a 5ª Conferência Pan-Americana do Café. Realizou-se, ainda, a Exposição Internacional do Café e a Feira de Curitiba. Nada no interior.
Paralelamente, houve a inauguração das obras monumentais na capital: o Centro Cívico (abrangendo o Palácio Iguaçu, as sedes do Legislativo e do Judiciário, a residência do governador etc.), o Teatro Guaíra, a Biblioteca Pública e a Praça 19 de Dezembro.
Pela interpretação em "O Paraná Reinventado – Política e Governo" (Série Pesquisas Ipardes – 1989), as obras monumentais no centenário deveriam refletir as potencialidades e a modernização. Curitiba transformada em "um lugar do poder", expressão de Bento, "que só encontra paralelo no de Washington, nos Estados Unidos da América do Norte". O marco na Praça 19 de Dezembro é uma pequena réplica do Monumento de Washington.
Acusado de ter governado mais para a capital com o dinheiro do café, Bento Munhoz ganhou o apelido de "prefeito de Curitiba", lembraria o historiador Brasil Pinheiro Machado.
O governo Bento Munhoz (1951-1954) asfaltou os primeiros trechos da então Paralela 1 (hoje BR-369) entre Cornélio Procópio, Londrina e Rolândia. Mas os seus "índices poderiam ser considerados pouco significativos para a avaliação dos investimentos na política de transportes, dado que, no período, parte das verbas era orientada à construção de obras na capital", segundo a análise na publicação do Ipardes.
À época, entraram para o domínio público comentários de que eram "frequentes vendas e revendas de uma única carga às obras do Centro Cívico: um mesmo caminhão entrava diversas vezes num mesmo portão registrando sempre o mesmo material para os fiscais do governo".

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