Hípica, um bairro rural
Telma Elorza
De Londrina
Com apenas duas ruas, a Vila Hípica é um dos menores bairros de Londrina, na zona oeste da cidade. A tranquilidade do local, onde é possível ver animais pastando, faz com que os moradores não abram mão do lugar. Mas nem tudo é maravilha: a vila não dispõe de supermercado nem de escola. Uma das ruas também não conta com energia elétrica
O bairro tem um nome pomposo: Vila Hípica. E, como a própria denominação sugere, fica ao lado do Jóquei Clube de Londrina, na zona oeste da cidade. Apesar do nome, porém, o bairro é um dos menores da cidade. Tem apenas duas ruas, uma perpendicular à outra. A principal, a Rua Jóquei Clube, começa na Avenida Tiradentes e tem de um lado as instalações do hipódromo e, do outro, cerca de 20 casas. A segunda, Rua Francisco Alves que une a vila ao Jardim Messiânico é formada basicamente por chácaras.
De tão pequeno, no bairro não há nenhum tipo de comércio, a não ser um ou outro bar. Os moradores precisam recorrer ao vizinho Messiânico para qualquer compra ou serviço. A escola, frequentada pelas crianças, fica no Jardim Bandeirantes, já que a única que havia a Escola Municipal Rocha Pombo fechou há muito tempo. Tirando estas dificuldades, ninguém reclama de morar por ali. Com a área do Jóquei Clube preservada pelo menos por enquanto , eles conseguem aliar os confortos da cidade com a paz do campo, com cavalos, vacas e cabras pastando por ali.
Isto aqui é muito bom, sossegado. Não tem os perigos dos outros bairros, violência, nada. Todo mundo se conhece e se ajuda, diz o aposentado Valdovir Luiz Figueiredo, 78 anos, morador do bairro há 27 anos. Seo Valdovir recorda a última corrida de cavalos que teve no Jóquei. Foi um ano depois que eu comprei minha casinha aqui, em 72. Foi uma festança e tanto. Eu lembro que o filho de um vizinho daqui foi jóquei nesta corrida. Depois pararam. Puseram jogo de pólo e o clube nunca mais foi o mesmo, lembra.
A história do jóquei e da vila estão intimamente ligadas. A vila, aliás, surgiu em função do hipódromo. Quem conta é dona Helena Bert Ardigo, 84 anos, viúva de um dos fundadores e primeiro presidente do jóquei, Zacarias Ardigo. Dona Helena mora até hoje na Rua Jóquei Clube, a principal do bairro, para onde se mudou há cerca de 25 anos. Segundo ela, seu marido e uma turma de amigos, loucos por corridas de cavalos, resolveram fundar um clube de turfe, no começo da década de 50. Eles se uniram, juntaram dinheiro, venderam ações e compraram esta área, com 14 ou 15 alqueires, conta.
Segundo dona Helena, o local, antes, era ocupado por uma fazenda de café. Era uma beleza ver aquele cafezal. Deu dó quando cortaram os pés para fazer a pista e construir as instalações, recorda. As terras onde hoje se localiza o bairro também faziam parte do patrimônio do clube. Meu marido loteou e vendeu este pedaço para levantar dinheiro para o hipódromo. E deu o nome ao bairro, conta.
Na época, dona Helena ainda não residia no local eu morava ali naquela esquina, onde hoje é a Cipasa (centro da cidade) mas costumava frequentar o hipódromo todos os domingos. Meu marido fazia questão que a família toda viesse às corridas. Com os filhos pequenos (ao todo eram sete filhos), era uma dificuldade terrível chegar aqui, conta. Com o tempo, porém, deu um jeitinho de deixar de frequentar os derbis. Enjoa, né?, explica.
Quando voltou ao bairro, foi de mala e cuia. Meu marido pegou uns lotes aqui, por conta de um dinheiro que o clube devia a ele, conta. Os lotes, de 10 metros de frente por 36 de fundo, eram bons para época. Não era uma grande área mas dava para viver bem. Mas o bairro não tinha nada. Nem luz, nem asfalto, nem água encanada. No fundo da casa, a gente tinha um poço com bomba, lembra.
Hoje, dona Helena diz que o bairro está um pouco melhor. Até o ônibus está passando aqui em frente, aponta. Mas reconhece que nunca mais foi o mesmo depois que o Jóquei Clube parou com as corridas. As corridas eram eventos sociais mesmo, tudo muito bonito, as pessoas bem arrumadas. Para quem viu o que era, dá tristeza ver o jóquei neste estado, lamenta.
A dona Maria da Conceição Rocha, 77 anos, a mais antiga moradora da Vila Hípica onde reside há 37 anos também lamenta o estado atual do Jóquei Clube. Ela, que teve um filho jóquei e o marido trabalhando no hipódromo, diz que o clube trazia alguma animação para o bairro, geralmente calmo. Hoje parece que esqueceram este cantinho de Londrina. Só os moradores sabem que isto existe ainda, diz.
Segundo dona Conceição, a maior tristeza é ver a antiga escola, em um área doada pelo Jóquei à prefeitura, fechada. Eu olho esta escola, onde três dos meus quatro filhos estudaram, e dá uma pena, conta. Segundo ela, a escola parou de funcionar há cerca de 20 anos porque as professoras achavam que não tinha criança suficiente. Elas também reclamavam da dificuldade em chegar aqui, conta. E muita gente concordava com elas. Dos antigos vizinhos, poucos sobraram ali. Os que não morreram, mudaram. Hoje sobraram poucos aqui, lamenta.
A escola fechada também é a principal reclamação de Patrícia Cordeiro dos Santos, 21 anos, uma das moradoras mais recentes da Vila Hípica, residindo ali há dois anos. Aqui é bom, o aluguel é barato e o bairro é muito tranquilo, a criançada tem toda esta área para brincar (aponta o terreno do jóquei, em frente). Para quem morava em uma fazenda, é ótimo. Mas podiam reabrir esta escola, alguém podia fazer alguma coisa, né, reclama. Ela, que tem um filho de cinco anos, já pensa em quando ele começar a frequentar a escola. As crianças têm que andar um bom trecho e ir à escola no Bandeirantes, explica.
Valdovir Figueiredo acredita que o maior problema do bairro, porém, é a falta de luz da rua Francisco Alves. Na Rua Jóquei Clube é tudo certinho, tem luz, água, asfalto. Mas na Francisco Alvez falta a iluminação. E todo mundo usa esta rua para ir e vir ao Bandeirantes. O pessoal fica com medo de ser assaltado e tem também muitas mulheres que passam por aqui que podem acabar sendo molestadas, reclama.
A falta de iluminação pública da Rua Francisco Alves pode ser resolvida, segundo o diretor de manutenção e serviços da Companhia Municipal de Urbanização (Comurb), Humberto Rodrigues de Lima, com uma simples solicitação à Comurb. Basta o pessoal vir aqui, protocolar o pedido que a gente manda um técnico para fazer o levantamento. Se o pedido for procedente, a Comurb encaminha o pedido diretamente à Copel, garante.
Já a reativação de uma escola no bairro é um pouco mais complicado. Segundo o secretário municipal de Educação, José Dorival Perez, é preciso fazer um levantamento da situação do bairro para ver o que poderia ser feito. Segundo ele, é preciso fazer um levantamento do número de alunos, a distância que eles percorrem atualmente e o tipo de escola que deve ser criada, entre outras.
Vou pedir à minha assessoria de planejamento que vá ao local conhecer a realidade do bairro, para que possamos fazer o planejamento. É nosso interesse atender a toda a comunidade escolar, afirmou.





