Hiperativos ainda enfrentam preconceito
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Silvana Leão<br> Reportagem local 
Crianças desatentas, inquietas e impulsivas quase sempre são um pesadelo para os professores e, invariavelmente, um grande desafio para os pais. O que muitos ainda desconhecem, porém, é que estas vítimas dos mais diversos rótulos podem ser um dos mais de 330 milhões de portadores do Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que atinge de 5% a 7% da população mundial. São crianças e adultos obrigados a conviver com dificuldades de se concentrar e de se organizar. Em muitos casos, para tornar possível esta convivência, é necessário o uso de medicamentos.
O TDAH é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a vida. A psicopedagoga londrinense Helenita Muller, especialista em educação especial e arte-educação, lembra, porém, que com a idade há uma redução da hiperatividade física e um aumento da hiperatividade mental. ''Portanto, se o diagnóstico não for feito precocemente e o paciente não for tratado, ele vai ter dificuldades também na vida adulta'', esclarece.
Segundo Helenita, na fase adulta o problema aparece por meio da incapacidade de proporcionar descanso ao cérebro, resultando em dificuldades de dormir e maior propensão ao estresse, por exemplo. ''O ideal é que o tratamento comece cedo, por volta dos três anos de idade, quando, diferentemente do que muitos imaginam, o paciente deve ser tratado com estimulantes.''
A psicopedagoga explica que os estimulantes, no caso do hiperativo, resultam em maior tranquilidade. ''Muitos imaginam que essas crianças devem tomar calmantes, o que é um erro. Por tratar-se de uma deficiência na produção de neurotransmissores (principalmente dopamina e noradrenalina) responsáveis pela capacidade de prestar atenção e regulação motora no lóbulo frontal, é preciso utilizar medicamentos que ajudem a criança a manter a atenção em determinado foco por mais tempo. O calmante, neste caso, tem efeito contrário.''
A região frontal orbital é uma das mais desenvolvidas no ser humano em comparação com outras espécies animais e é responsável também pela inibição do comportamento (isto é, controlar ou inibir comportamentos inadequados), pela memória, autocontrole, organização e planejamento.
Além dos medicamentos, são indicados no tratamento do portador de TDAH terapia e atividade física, que ajuda na produção de neurotransmissores. Também é indicado o acompanhamento de um neuropediatra. ''Com estas medidas, a qualidade de vida aumenta em praticamente 100%'', diz Helenita, que em setembro do ano passado criou o Grupo de Apoio a Hiperativos para Pais e Portadores (GAHPP), uma iniciativa pioneira na região para ajudar famílias que encontram dificuldades em lidar com o problema.
Uma situação comum, lembra a psicopedagoga, é confundir o hiperativo com uma criança mal-educada. ''Mas há diferenças básicas entre eles. Por exemplo, no caso do hiperativo, se você pedir para ele não pegar os óculos sobre a mesa, pois podem cair e quebrar, ele concorda e sai de perto. Mas dali a alguns minutos esquece-se, volta e, se você deixar, vai pegar os óculos. Já o mal-educado vai logo pegando e quebrando tudo'', esclarece.
Principais características do hiperativo:
✓ É uma criança agitada, que não para e não tem noção do perigo, por isso envolve-se em brincadeiras arriscadas. Alguns têm dificuldade para dormir ou dormem pouco
✓ São distraídos e desatentos na escola. Podem ter problemas com a regulagem motora são o que chamamos de criança de desastradas: trombam com tudo, derrubam, quebram
✓O hiperativo é obediente, aceita a ordem, mas minutos depois se esquece e faz o contrário
✓ São pessoas com inteligência normal ou acima da média, nunca são limítrofes
✓Embora tenham dificuldade de concentração, podem demonstrar hiperfoco para atividades que lhe dão prazer, graças a conexões nervosas enviadas ao lóbulo frontal. Portanto, os hiperativos podem dedicar horas a fio a atividades que
gostam
✓ Em adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória (são muito esquecidos). São inquietos (parece que só relaxam dormindo), vivem mudando de uma coisa para outra e também são impulsivos (colocam os carros na frente dos bois). Frequentemente são considerados egoístas e podem ter outros problemas associados, como uso de drogas e álcool, ansiedade e depressão
(Fontes: Helenita Müller e Associação Brasileira do Déficit de Atenção - ABDA)


