Crianças desatentas, inquietas e impulsivas quase sempre são um pesadelo para os professores e, invariavelmente, um grande desafio para os pais. O que muitos ainda desconhecem, porém, é que estas vítimas dos mais diversos rótulos podem ser um dos mais de 330 milhões de portadores do Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que atinge de 5% a 7% da população mundial. São crianças e adultos obrigados a conviver com dificuldades de se concentrar e de se organizar. Em muitos casos, para tornar possível esta convivência, é necessário o uso de medicamentos.
O TDAH é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a vida. A psicopedagoga londrinense Helenita Muller, especialista em educação especial e arte-educação, lembra, porém, que com a idade há uma redução da hiperatividade física e um aumento da hiperatividade mental. ''Portanto, se o diagnóstico não for feito precocemente e o paciente não for tratado, ele vai ter dificuldades também na vida adulta'', esclarece.
Segundo Helenita, na fase adulta o problema aparece por meio da incapacidade de proporcionar descanso ao cérebro, resultando em dificuldades de dormir e maior propensão ao estresse, por exemplo. ''O ideal é que o tratamento comece cedo, por volta dos três anos de idade, quando, diferentemente do que muitos imaginam, o paciente deve ser tratado com estimulantes.''
A psicopedagoga explica que os estimulantes, no caso do hiperativo, resultam em maior tranquilidade. ''Muitos imaginam que essas crianças devem tomar calmantes, o que é um erro. Por tratar-se de uma deficiência na produção de neurotransmissores (principalmente dopamina e noradrenalina) responsáveis pela capacidade de prestar atenção e regulação motora no lóbulo frontal, é preciso utilizar medicamentos que ajudem a criança a manter a atenção em determinado foco por mais tempo. O calmante, neste caso, tem efeito contrário.''
A região frontal orbital é uma das mais desenvolvidas no ser humano em comparação com outras espécies animais e é responsável também pela inibição do comportamento (isto é, controlar ou inibir comportamentos inadequados), pela memória, autocontrole, organização e planejamento.
Além dos medicamentos, são indicados no tratamento do portador de TDAH terapia e atividade física, que ajuda na produção de neurotransmissores. Também é indicado o acompanhamento de um neuropediatra. ''Com estas medidas, a qualidade de vida aumenta em praticamente 100%'', diz Helenita, que em setembro do ano passado criou o Grupo de Apoio a Hiperativos para Pais e Portadores (GAHPP), uma iniciativa pioneira na região para ajudar famílias que encontram dificuldades em lidar com o problema.
Uma situação comum, lembra a psicopedagoga, é confundir o hiperativo com uma criança mal-educada. ''Mas há diferenças básicas entre eles. Por exemplo, no caso do hiperativo, se você pedir para ele não pegar os óculos sobre a mesa, pois podem cair e quebrar, ele concorda e sai de perto. Mas dali a alguns minutos esquece-se, volta e, se você deixar, vai pegar os óculos. Já o mal-educado vai logo pegando e quebrando tudo'', esclarece.


Prin­ci­pais ca­rac­te­rís­ti­cas do hi­pe­ra­ti­vo:


✓ É uma crian­ça agi­ta­da, que não pa­ra e não tem no­ção do pe­ri­go, por is­so en­vol­ve-se em brin­ca­dei­ras ar­ris­ca­das. Al­guns têm di­fi­cul­da­de pa­ra dor­mir ou dor­mem pou­co
✓ São dis­traí­dos e de­sa­ten­tos na es­co­la. Po­dem ter pro­ble­mas com a re­gu­la­gem mo­to­ra – são o que cha­ma­mos de crian­ça de de­sas­tra­das: trom­bam com tu­do, der­ru­bam, que­bram
✓O hi­pe­ra­ti­vo é obe­dien­te, acei­ta a or­dem, mas mi­nu­tos de­pois se es­que­ce e faz o con­trá­rio
✓ São pes­soas com in­te­li­gên­cia nor­mal ou aci­ma da mé­dia, nun­ca são li­mí­tro­fes
✓Em­bo­ra te­nham di­fi­cul­da­de de con­cen­tra­ção, po­dem de­mons­trar hi­per­fo­co pa­ra ati­vi­da­des que lhe dão pra­zer, gra­ças a co­ne­xões ner­vo­sas en­via­das ao ló­bu­lo fron­tal. Por­tan­to, os hi­pe­ra­ti­vos po­dem de­di­car ho­ras a fio a ati­vi­da­des que
gos­tam
✓ Em adul­tos, ocor­rem pro­ble­mas de de­sa­ten­ção pa­ra coi­sas do co­ti­dia­no e do tra­ba­lho, bem co­mo com a me­mó­ria (são mui­to es­que­ci­dos). São in­quie­tos (pa­re­ce que só re­la­xam dor­min­do), vi­vem mu­dan­do de uma coi­sa pa­ra ou­tra e tam­bém são im­pul­si­vos (‘‘co­lo­cam os car­ros na fren­te dos ­bois’’). Fre­quen­te­men­te são con­si­de­ra­dos egoís­tas e po­dem ter ou­tros pro­ble­mas as­so­cia­dos, co­mo uso de dro­gas e ál­cool, an­sie­da­de e de­pres­são
(Fon­tes: He­le­ni­ta Mül­ler e As­so­cia­ção Bra­si­lei­ra do Dé­fi­cit de Aten­ção - AB­DA)

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