Hidrovia pode destruir ecossistema
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segunda-feira, 26 de maio de 1997
Antônio França, de Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaCatástrofe anunciadaEcologistas defendem que hidrovia comprometeria um ecossistema complexo; jacarés seriam ameaçados Representantes de comunidades indígenas, ecologistas e cientistas de dez organizações não-governamentais do Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Holanda e Estados Unidos reagiram anteontem, em Foz do Iguaçu, contra a implantação da Hidrovia Paraná-Paraguai. Eles fizeram uma inspeção nos rios Iguaçu e Paraná para avaliar o estágio de degradação das duas principais bacias hidrográficas do Sul do País.
O encontro teve a intenção de chamar a atenção de autoridades dos países latino-americanos para os impactos negativos na natureza com a implantação da hidrovia. Segundo eles, o prejuízo maior será verificado no Pantanal, por causa da sua complexidade hidrológica e riqueza biológica. O Paraguai é o principal rio pantaneiro, responsável pelas inundações periódicas, que fazem da região a maior planície alagada do planeta.
Segundo Sérgio Guimarães, do Instituto Centro de Vida de Cuiabá (MT), um dos principais aspectos negativos da hidrovia é a retirada de pedras, que funcionam como conta-gotas dos rios. Ele explica que as pedras servem para barrar a água e a sua retirada deve provocar mudança séria no ecossistema. Hoje, se uma garrafa for jogada no rio, demoraria seis meses para atravessar os 600 quilômetros do Pantanal, devido à falta de correnteza.
Sem esse conta-gotas, a velocidade da água aumenta e as cabeceiras dos rios vão secar. O resultado é a inversão do sistema, que pode provocar cheias na região da Bacia do Prata, entre Uruguai e Argentina, e seca no Pantanal, prevê Guimarães.
Para Victor Miguel Ponce, da Universidade de San Diego, na Califórnia (EUA), as pedras funcionam como barragens naturais e a ampliação do leito do rio significaria alargar a boca do funil.
Os ecologistas acreditam que essa inversão deve provocar mudanças na fauna, flora, atividade econômica e na cultura dos povos das regiões próximas aos rios impactados pela hidrovia.
Além disso, estudos do ecologista Alcides Faria, do grupo Ecoa, de Campo Grande (MS), mostram que os motores das embarcações vão turbinar as águas e diminuir sua qualidade. Isso, segundo ele, vai afetar a reprodução de peixes e plantas aquáticas.
Os agrotóxicos que ficam no fundo dos rios virão à tona com o movimento dos motores. Isso vai trazer degradação de fauna e flora, além de provocar despesas para o tratamento da água para consumo, diz.
Estudos feitos pelos cientistas apontam que a diminuição de apenas 10 centímetros da cabeceira do rio Paraguai causaria uma redução de 20 quilômetros do leito do rio, o equivalente a 9% da área. No caso de uma redução mais drástica, de 50% de estreitamento da nascente, por exemplo, a diferença no nível do rio, no Pantanal, seria de 45%.
O Pantanal funciona como uma esponja, que retém água do degelo da Cordilheira dos Andes e sedimentos, além de água das chuvas do planalto brasileiro, alimentando 175 afluentes. Somente o rio Paraguai recebe cerca de 45 bilhões de metros cúbicos de água por ano, o suficente para abastecer mais de 450 milhões de pessoas.
A cadeia biológica pantaneira é formada por 262 espécies de peixes, 100 espécies de mamiferos, 32 milhões de jacarés, 2,5 milhões de capivaras, 71 mil veados-campeiros, 9.800 manadas de porcos-do-mato e 35 mil cervos-do-pantanal, além de 15.800 ninhos de tuiuiús.


