O Seminário Hidrelétrica versus Biodiversidade, realizado ontem na Universidade Estadual de Londrina (UEL), concluiu que ocorreram várias irregularidades em todo o processo de estudos ambientais do projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Jataizinho. Ao final do encontro, os participantes elaboraram uma carta que será encaminhada a todos os órgãos de pesquisa e preservação envolvidos com o meio ambiente. Participaram do debate representantes da Copel, Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Núcleo de Meio Ambiente (Nema) da UEL, prefeitos da região, estudantes e comunidade.
Entre as irregularidades apontadas durante o seminário estão o tempo escasso - apenas 4 meses - para os técnicos contratados pela Copel realizarem o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da parte biótica (levantamento da flora e fauna) e ausência de um técnico do IAP nos estudos. Os participantes também alertaram para o fato de os resultados do estudo sobre a qualidade das águas terem sido gravemente prejudicadas por erro do laboratório Cena, da Universidade de São Paulo, que afirma ter perdido as análises de pesticidas.
Entre as recomendações tiradas no seminário estão a exigência das assinaturas dos técnicos nos relatórios de impacto ambiental; o estabelecimento de diretrizes, como área e tempo (de pelo menos um ano) de estudos para execução dos demais Rima a serem realizados no Rio Tibagi; e que a Copel siga à risca a resolução do Conama 001/86, no sentido de não interferir na contratação da equipe técnica e na elaboração dos estudos de análise ambiental.
Dos profissionais responsáveis pelo Rima, seis questionam o projeto da Copel, entre eles a engenheira florestal Silvia Ziller. ‘‘Atualmente as concessionárias que exploram a energia elétrica, no País, realizam antes o projeto de engenharia, para depois se preocuparem com o impacto ambiental da obra. O processo tem de mudar.’’
A hidrelétrica está projetada para ser construída no rio Tibagi, distante cinco quilômetros da ponte na divisa entre Jataizinho e Londrina. A obra vai atingir a Mata Doralice (Londrina), inundando praticamente 50% da sua área total que é de cerca de 220 hectares. O engenheiro florestal da Copel Ricardo Iantas afirma que a mata já tinha sido explorada na parte a ser inundada. Mas Silvia Ziller esclareceu que a área está totalmente recuperada. No Rima, pesquisadores alertam que os danos ao meio ambiente serão enormes e irrecuperáveis.
Silvia Ziller disse que os profissionais que trabalharam na análise ambiental se surpreenderam com a diversidade da fauna e flora da região. ‘‘Esperávamos encontrar uma região muito danificada. Mas descobrimos que ela ainda guarda um meio ambiente estruturado.’’ Entre os efeitos inevitáveis estão o desaparecimento de tipos de peixes, hoje característicos do Tibagi. Ainda segundo o relatório, pelo menos uma ave em extinção - o pato-mergulhão - vai desaparecer.
A vegetação típica das matas ciliares também será destruída com o represamento. A qualidade da água é outro ponto crítico. Segundo a engenheira florestal, a represa formada pela hidrelétrica vai estar circundada por propriedades rurais, e irá receber todos os resíduos de agrotóxicos ali utilizados.
O engenheiro Ricardo Iantas afirma que a Copel está investindo pesadamente em programas ambientais. Ele confirma as informações repassadas pelos profissionais envolvidos na elaboração do Rima, mas frisa que a demanda por energia elétrica precisa ser atendida.
Iantas ressalta que, apesar da lei que obriga a realização de estudos ambientais ser de 94, a Copel vem priorizando a questão há cerca de 20 anos. O engenheiro florestal comenta que o rio Tibagi está em um processo de degradação avançado e que a hidrelétrica poderá ajudar a deter esta destruição. ‘‘Este encontro é uma prova disto. Não fosse a decisão da Copel de fazer uma hidrelétrica no local e propiciar o estudo da área, ninguém teria se levantado para defender a sua preservação.’’
O seminário foi promovido pelo Projeto Aspectos da Fauna e Flora da Bacia do Tibagi, financiado pela empresa Klabin, através do Consórcio Intermunicipal para Proteção Ambiental da Bacia do Rio Tibagi (Copati).

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