Os casos de Aids em heterossexuais, que em 1988 representavam apenas 4,4% do total registrado no Paraná, já respondem hoje por 28,4% dos casos notificados da doença. É o grupo que responde pelo maior percentual nessa estatística e que vem apresentando o maior crescimento na incidência da doença - uma evolução que, segundo os especialistas, é explicada principalmente pelo aumento no número de casos de Aids entre mulheres.
Em 1986, o Paraná registrou 15 casos de Aids, todos em homens. Em 1988, para cada nove casos em homens havia um caso em mulher. No ano passado, já havia uma mulher com Aids para cada dois homens.
A médica Rita Esmanhoto, do Departamento de Saúde Comunitária da UFPR, diz que a estatística nacional mostra, além da ‘‘feminização’’ da doença, dois outros fenômenos: a interiorização (presença cada vez mais frequente da doença em pequenas cidades) e a pauperização (atinge camadas sociais menos favorecidas).
No Paraná, a coordenadora do Programa Estadual de DST-Aids, Jurema Carlim, diz que entre as mulheres a faixa etária mais acometida pela doença vai dos 20 aos 44 anos. Outro dado importante é que a maioria são mulheres casadas e que mantêm relacionamento sexual só com os maridos.
Apesar do crescimento da doença entre esse grupo, não existem campanhas nem projetos específicos para atingi-los, admite Jurema.
Os especialistas dizem que não é possível saber com exatidão se esses maridos contraíram o vírus em relacionamentos heterossexuais ou pela prática bissexual. Segundo Rita Esmanhoto, essa segunda possibilidade deve ser a mais comum, uma vez que, segundo estudos, a chance de um homem transmitir o vírus é de 10 a 25 vezes maior do que de ocorrer a transmissão por mulheres.
‘‘Mas é preciso sempre alertar que mulher também transmite o vírus da Aids, mesmo que em menores proporções’’, diz Clarice Calo, presidente do Grupo Pela Vidda do Paraná, que trabalha com apoio e orientação sobre a doença. Clarice também defende a mobilização das mulheres para reivindicar a distribuição de preservativos femininos, ainda em fase de testes.
Segundo Clarice, o grande empecilho na conscientização das mulheres para o perigo da Aids é o fato de que elas, de modo geral, não se consideram suscetíveis à doença. ‘‘E essa mentalidade não é só de operárias, mas também de dentistas, médicas, professoras’’, afirma. A prevenção esbarra ainda na emoção. ‘‘Como convencer uma mulher apaixonada de que ela precisa exigir de seu parceiro o uso de preservativo?’’, pergunta.
Para Rita Esmanhoto, a saída são campanhas centradas na auto-estima feminina. As mulheres, diz ela, precisam ter valores e existência próprios e, em nome deles, se proteger e proteger seus filhos. Segundo ela, estima-se que, no ano 2000, haverá 10 milhões de crianças órfãs da Aids no mundo.

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