HC não comporta mais bebês de risco
HC não comporta mais bebês de risco
Albari RosaMesmo com a placa, intensa procura causa superlotação da maternidade do HCNa porta da maternidade do Hospital de Clínicas em Curitiba uma placa com a inscrição não há vagas está pendurada há três anos. Há alguns dias,
uma faixa que alerta a população sobre a superlotação da maternidade foi colocada para reforçar a informação. Não adiantou. As gestantes continuam chegando e desde dezembro o atendimento na maternidade está superando limites por causa da falta de vagas na UTI neonatal. Os oito leitos estão ocupados e se houver uma complicação em um parto não há como atender o bebê. O responsável pela UTI neonatal, Mitsuru Miyaki, diz que a situação está quase fugindo ao controle e é necessário encontrar uma solução urgente.
A situação do HC está em um relatório que está sendo enviado para a Secretaria Estadual da Saúde. A maternidade faz cerca de 2,2 mil partos por ano e cerca de mil bebês nascem em situação de risco. Esta proporção é grande porque a maternidade é referência no atendimento de casos de risco. Nos últimos oito meses, segundo o relatório, os berçários de médio risco registraram 744 atendimentos, em 32 leitos. Felizmente 92% dos bebês tiveram alta, comemora Miyaki. Mas ele alerta que, quando existe superlotação, aumenta o risco de infecção hospitalar e os prematuros são muito frágeis para enfrentar isso.
O responsável pela UTI neonatal do HC considera que o que aconteceu na maternidade Alexander Fleming no Rio de Janeiro não é um fato isolado, mas uma situação nacional. No HC, a equipe evita uma tragédia dia após dia. Estamos pisando em ovos, compara. Com a colaboração da equipe de obstetrícia, restringindo o número de partos de acordo com o limite de leitos na UTI neonatal, evita-se uma situação em que o bebê de risco fique sem atendimento. Como não há enfermeiras suficiente para o atendimento dos 32 leitos, a equipe tenta manter um número menor de internados.
Os leitos de médio risco também requerem equipamentos para manter o bebê aquecido e com oxigênio. Os bebês chegam a ficar mais de três meses se recuperando. Mateus, de 45 dias, nasceu com um quilo, mas por causa das dificuldades respiratórias não conseguia sugar o leite e emagreceu até chegar aos 775 gramas, se recuperou e hoje está com um quilo e 140 gramas, mas ainda vai ficar muito tempo na UTI. Depois que a criança começa a ganhar peso, sem oscilações, ela fica em observação até atingir o peso mínimo de acordo com a idade, para ir para casa.
Monique nasceu no dia 10 de novembro, com apenas 580 gramas. Três meses depois ela atingiu 1,6 quilo e em duas semanas deve ir para casa. A enfermeira Marli Godinho Suczeck diz que a equipe acaba se apegando às crianças e a realização pessoal é grande quando o bebê está pronto para ter alta.
Para o responsável pela UTI neonatal do HC, é aí que começa o trabalho de acompanhamento das mães. Já aconteceu de ficarmos três meses cuidando de um bebê e logo depois da alta ele ter uma desidratação e morrer, conta. Segundo ele, isso vem sendo superado com o acompanhmento depois da alta e com a orientação das mães.
O preço da vida de um bebê de alto risco é muito alto e a vida muito frágil, diz Miyaki. Por ser um hospital universitário, o HC recebe cerca de R$ 300,00 por parto e a diária na UTI neonatal é de R$ 200,00 nos primeiros quatro dias, o que representa prejuízo. Quanto mais se atende casos de risco, maior o prejuízo. Não existe incentivo para salvar estas vidas, nem para os hospitais, nem para os médicos, conclui. Para ele, se não houver solução, as perspectivas não são boas, pois os períodos de superlotação costumavam ser curtos e esporádicos, mas desde dezembro os atendimentos estão no limite, com a tendência de aumentar. (M.K.)





