Hackney combate monstros de concreto
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 1997
Mariela de Castro Santos 
Curitiba
Marcelo AlmeidaUm por todos, todos por umRod Hackney, na Vila Pinto: acreditando que as soluções habitacionais para os pobres estão dentro das próprias comunidadesRod Hackney é um arquiteto inglês que acredita que as pessoas devem ter um direito básico: escolher onde morar e como morar. Conhecido na Europa pelo que se apelidou de arquitetura dos pobres, Hackney se dedica a um trabalho de poucos: a arquitetura comunitária.
Ele esteve em Curitiba este mês como palestrante do 15º Congresso Brasileiro de Arquitetura, e participou da reunião da União Internacional dos Arquitetos, em preparação para um encontro mundial que acontece no ano que vem, em Pequim, na China. Aqui, apresentou o resultado de 21 anos de trabalho voltado para as comunidades pobres, especialmente na Grã-Bretanha.
Educado na escola modernista, Hackney esteve no Canadá e na Dinamarca, e ao voltar para a Inglaterra, no início da década de 70, encontrou um país completamente diferente. O choque foi inevitável. Cidades como Birmingham e Sheffield haviam se tornado monstros de concreto. Milhares de famílias haviam sido despejadas de suas casas vitorianas com terraço para serem alocadas em conjuntos habitacionais.
O arquiteto não tinha muito dinheiro e comprou uma casa na Black Road, na cidade de Macclesfield. Pouco tempo depois, a área foi considerada inabitável. As residências datavam de 1815 e deveriam ser demolidas. Inconformado, Hackney armou a resistência: uniu-se às 80 famílias que moravam na mesma rua e passou dois anos lutando para provar que Black Road, classificada como insalubre e imprópria para viver, poderia ser, sim, um bom lugar se passasse por uma reciclagem.
A vitória veio em 1972. Black Road se tornou o primeiro conjunto residencial reformado, organizado e administrado pelos próprios moradores. Segundo Hackney, o problema mais difícil a ser contornado em situações semelhantes é a burocracia governamental.
Se entre seus companheiros arquitetos ele é respeitado, para os membros de comunidades pobres inglesas - salvas por ele da ameaça de serem despejadas em nome do desenvolvimento - ele se tornou um verdadeiro herói.
As próprias comunidades, no entanto, são impermeáveis a tudo o que lhes parece imposição, obra de quem não vive aquela vida. Por isso, Rod Hackney defende uma idéia que abala as estruturas de muita gente: Para entender uma favela e encontrar soluções habitacionais para os moradores, o arquiteto tem que viver a vida deles, afirma. Em outras palavras, deve morar na favela por algum tempo, não só para entender como se processa aquela realidade, mas também para ser aceito pela comunidade como membro interessado no bem-estar conjunto.
É claro que nem todo mundo compartilha essas propostas polêmicas. Afinal, algumas favelas brasileiras têm um padrão de vida tão abaixo do aceitável que trocar de classe social assim da noite para o dia exige do arquiteto disposição e preparo psicológico muito grandes.


