Fila de espera de quase 20 anos e ''casas de sobra'' para atendimento de mutuários. Essa situação contraditória é o retrato atual da Companhia de Habitação (Cohab) em Londrina. A instituição mantém dois tipos de programas habitacionais, que diferem pelo teto salarial familiar. Enquanto para os mais carentes faltam opções de financiamento, para quem pode comprovar melhor renda, o panorama é diferente. O calendário marca hoje o Dia da Habitação.
Para famílias com renda mensal de R$ 83 a três salários mínimos (R$ 720,00), há o Programa de Subsídio Habitacional (PSH). Já o Programa de Arrendamento Residencial (PAR) tem como público alvo famílias cuja renda mensal varia entre três e seis salários (R$ 1.440,00). Nesta faixa, que exige maior poder aquisitivo, a procura dos mutuários é menor do que a oferta de casas.
O presidente da Cohab, Carlos Eduardo de Afonseca e Silva, afirma que a instituição não tem fila de espera para as próximas obras pelo PAR. A assinatura de contrato só ocorre com ''demanda caracterizada''.
Para o pintor autônomo Luiz Carlos Picinin Bacinello, 46 anos, o principal problema de programas como o PAR é a obrigatoriedade de comprovação de renda. Sua primeira inscrição na Cohab foi em 1988. ''Desde aquela época, sempre passava lá para saber da minha ficha'', revelou. Segundo ele, numa de suas últimas visitas no ano passado à Cohab foi informado de que sua inscrição não era mais válida e não se encaixaria em nenhum dos programas. Na época, a renda do casal girava em torno de R$ 700, o que colocaria a família na faixa exigida pelo PAR. A esposa Ivanildes Carvalho Bacinello, 43 anos, trabalhava como zeladora em banco. Há cinco meses, no entanto, está desempregada.
Há dez anos, Bacinello mora na mesma casa, no Jardim Europa (zona sul), com a esposa e duas filhas. Atualmente, paga as despesas de água e luz e um ''aluguel simbólico''. Bacinello participou também do Programa Poupalar, que pagou durante três anos e quatro meses. Após algum tempo, recebeu o dinheiro de volta, com multa. Segundo Bacinello, a família estaria disposta a pagar até R$ 150 mensais para ter casa própria. ''Uma coisa que seria nossa'', destacou.
O desânimo pela espera também abate a cozinheira Dagma de Oliveira, 41. Ela fez o cadastro em três oportunidades: 1987, 1992 e 1996. Em 1999, participou ainda do Poupalar. Desde o ano passado, mora com as filhas Pamela, 15, e Priscila, 14, em uma pequena casa alugada no Conjunto Semíramis (zona norte). O aluguel consome boa parte do orçamento de R$ 350 mensais. Faz pouco mais de um ano que Dagma não procura a Cohab novamente. ''A gente perde a esperança'', declarou.
O caso de Dagma não é raro. Pelo contrário. Na própria vizinhança, é possível encontrar outras pessoas que estão há anos na fila da Cohab. A desempregada Beatriz de Oliveira teve sua inscrição feita no ano passado cancelada. ''Apesar de não ter retorno da Cohab, não desisti de ter minha casa'', enfatizou. Separada, ela tem três filhos e mora de aluguel num pequeno imóvel no bairro, pelo qual paga R$ 100 mensais.

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