Habilitados, mas com medo de dirigir
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quarta-feira, 06 de janeiro de 2016
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
Como a maioria dos jovens, Mariane Guizeline Calderon, de 21 anos, não via hora de obter a carteira nacional de habilitação (CNH). Assim que completou 18 anos, fez matrícula na autoescola e logo estava habilitada a dirigir. Ela só não esperava que depois de vencido o processo teria que enfrentar um problema comum aos iniciantes do volante: o medo. "Tirei carteira e nunca mais dirigi um carro (com câmbio) manual. Com isso acabei criando um medo de dirigir sozinha, fiquei sem confiança em mim mesma", relata a estudante de Fisioterapia, que reside no Distrito da Warta (zona norte) e precisa ir ao centro de Londrina todos os dias para estudar.
Mariane integra um grupo de 8% da população mundial afetado pela fobia de dirigir. O dado é de uma pesquisa publicada pela revista Ciência Hoje.
Denominado amaxofobia, o mal acomete principalmente pessoas que já têm carteira de habilitação e que, por algum motivo, não se sentem seguras ou confiantes para tirar o carro da garagem.
A estudante londrinense só dirigia, em casos extremamente necessários, o carro automático do pai, mas é muito comum que motoristas criem bloqueios só de pensar na direção. E quando têm de enfrentar a tarefa apresentam, entre outros problemas, transpiração excessiva, taquicardia e perda do sono. "Só dirigia mesmo em situações necessárias, ficava nervosa", conta.
Juliana Barbino é psicóloga e começou a trabalhar com pessoas que têm medo de dirigir há quatro anos. Ela explica que o problema é bastante comum e pode se dar por vários fatores. "Tem gente que sofreu acidente e criou um bloqueio, às vezes a pessoa não tem disponibilidade de carro. Muitos saem da autoescola com um aprendizado restrito, direcionado somente a passar no teste. Existem vários fatores que levam a pessoa a não dirigir depois", enumera.
O perfil mais comum de quem tem amaxofobia inclui mulheres casadas, com nível superior, entre 21 e 45 anos, que exercem atividade remunerada e que, muitas vezes, possuem veículo próprio ou um carro à disposição. "A maioria é de pessoas perfeccionistas, que têm dificuldade de lidar com o erro, porque a direção é uma aprendizagem em que se lida muito com erros. E se a pessoa não tiver habilidade para lidar e entender os erros, para consertá-los fica complicado", observa a especialista.
O número de pessoas com o problema é tão alto que centros especializados trabalham hoje com a missão de "recuperar" motoristas habilitados. Foi a saída, por exemplo, que Mariane encontrou para sentar-se ao volante com segurança. Neste ano, a estudante começa a fazer estágio em Londrina e Cambé e precisará de um carro e principalmente de mais independência. Ela começou o treinamento há um mês e já teve dez aulas, suficientes para mudar o sentimento ao entrar no veículo. "Já tenho mais coragem e confiança. Antes, quando me diziam que teria que pegar o carro, já entrava em pânico. Agora é diferente, gosto de dirigir", conta a estudante.
O método desenvolvido por esses centros alternativos é diferente do convencional. "Na autoescola, todos têm o mesmo estilo de aula porque todos serão avaliados da mesma forma. A proposta deste modelo é trabalhar a dificuldade específica de cada aluno", aponta a psicóloga. "A gente faz o aluno entender que, por mais que ele não dirija, está apto para isso", acrescenta Jocelaine Mendonça, psicopedagoga e proprietária de um centro direcionado a pessoas que querem perder o medo de dirigir.
O primeiro passo é uma avaliação com o psicólogo. Em seguida, o aluno vai para a rua e segue um ritmo mais lento, até que esteja seguro para dirigir em situações adversas. A cada três aulas na rua, há uma nova consulta com o psicólogo para avaliar a evolução. Também são aplicados exercícios complementares e aulas técnicas, como noções de mecânica básica, além de palestras motivacionais. Em média, são necessárias entre 15 a 20 aulas para que a pessoa habilitada esteja apta a dirigir sem medo.
Para a psicóloga Neuza Corassa, autora do livro "Vença o medo de dirigir" (Editora Gente), é preciso assumir essa missão como um compromisso do dia a dia. "Pelo menos duas vezes por semana, a pessoa deve vestir o carro e realizar trajetos cotidianos, como a ida até a escola dos filhos, ao mercado, shopping, ao parque", receita.


