'Há três anos não sei o que é compra de mercado'
Cinquenta reais é a renda mensal de Silvana Rosa da Paixão, 37 anos, que cria sozinha quatro filhos, com idades entre 2 e 11 anos, num barraco de dois cômodos no Jardim União da Vitória II (Zona Sul). O dinheiro é fruto dos bicos que ela faz lavando roupa para os vizinhos e é gasto na compra de produtos de limpeza e higiene. Já os alimentos vêm de duas cestas básicas que ela recebe mensalmente de voluntários da Igreja Católica.
Como os três filhos mais velhos frequentam a escola, eles se alimentam melhor que a mãe e a irmã de 2 anos, que por ter problemas cardíacos não conseguiu vaga em creche. ''Nunca faltou um prato de comida, mas comemos basicamente arroz e feijão. Às vezes tem uma verdura ou uma fruta'', descreve Silvana, que além das cestas busca, todo sábado, verduras doadas por um sacolão.
Também na Zona Sul, numa casa de madeira construída em um fundo de vale no Jardim Monte Belo, a família da artesã Valdete Barbosa, 42, vive basicamente de arroz e feijão. Com o marido de 78 anos e a mãe, de 84, doentes, ela faz crochê em casa para colocar comida no prato. ''Para mim é mais importante a linha para o crochê do que uma cesta básica. Se eu trabalho, ganho até um salário mínimo'', garante a artesã, para quem é ''muito humilhante'' ter de pedir comida ao vizinho.
''É a pior situação pela qual um ser humano pode passar na vida'', resume Valdete, que vive com R$ 90 mensais da Bolsa Escola da filha adotiva de 8 anos. Com esse dinheiro, ela alimenta ainda o neto de 7 anos. A família já depende da ajuda do governo para viver há oito meses. ''As crianças não reclamam. Estão acostumadas a comer só arroz e feijão no almoço e na janta. Na escola elas tomam café e comem bolacha. Nós só tomamos café'', disse a artesã, que usa água de mina para cozinhar. ''Há três anos não sei o que é fazer compra no mercado.'' (M.G.)





