Há 10 anos, o rapaz perdeu o emprego em uma fábrica de móveis que deixou Londrina para se estabelecer em um outro município da região. O operário, que dava acabamento em armários, mesas e cadeiras, dominava as técnicas de pátina e verniz, enxergou nas ruas um negócio em expansão e tornou-se guardador de carros. No centro da cidade, dominou, durante uma década, um grande ‘‘fil钒: o trecho de uma das ruas próximas aos cinemas Vila Rica e Londrina.
Apesar de toda a esperteza, o ‘‘flanelinha’’ não previu o inevitável: os dois grandes cinemas não resistiram à fase das pequenas salas de exibição e acabaram fechando as portas. Diminuiu consideravelmente o número de carros estacionados nas proximidades, no período noturno.
O empresário da rua não sabia das modernas regras que direcionam os negócios no início do terceiro milênio. Não ficou atento às mudanças, nunca ouviu falar em aprendizado permanente, jamais leu sobre a era da informação ou a globalização, tampouco frequentou um curso de qualificação. Acabou excluído pela segunda vez.
Ao cliente habitual, que continua estacionando no mesmo local, o flanelinha desabafa: à noite, a rua ficou vazia, triste e a féria não dá nem para as despesas básicas. Sonha com a possibilidade do espaço dos velhos cinemas ser ocupado por uma igreja evangélica que arrasta diariamente centenas de fiéis – e seus automóveis – para o lugar. Mas teme que a solução demore a aparecer.
‘‘Está na hora de arrumar um emprego de dia, voltar a ter carteira assinada. Um emprego de verdade, porque é o trabalho que ‘danifica’ o homem’’, disse o flanelinha, numa referência ao velho ditado de que ‘‘o trabalho dignifica o homem’’.
Na simplicidade de tentar falar difícil, o guardador de carros não deixa de estar certo. Há trabalhos que danificam muito mais que dignificam. Basta ver a própria atividade do flanelinha, exposto diariamente aos perigos da rua, que surgem na forma do crime e do tráfico de drogas, por exemplo. Ou então o trabalho infantil, que segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), já atingiu 7,5 milhões de crianças no Brasil, roubando a infância e o direito à educação. Sem esquecer ainda dos operários que perdem a vida ou a saúde exercendo atividades perigosas sem equipamentos de segurança e as mínimas condições de trabalho. Ele está certo se lembrarmos que ainda há casos de trabalhadores que perdem o braço em máquinas de desfiamento de fibra de rami, como aconteceu recentemente em uma tecelagem do Norte do Estado.

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