Emerson Cervi
De Curitiba
Não é apenas no crescimento econômico que a Curitiba de 1899 se parece com a dos dias de hoje. Essas ‘‘duas’’ cidades passam por fenômenos muito parecidos nos últimos anos desses séculos. A imigração européia das década de 70 e 80 do século XIX e a migração do interior para a capital nos anos 60 e 70 do século XX causaram transformações significativas no perfil cultural e social dos curitibanos.
Em 1890 Curitiba tinha 24,5 mil habitantes, dos quais 1.941 eram estrangeiros. Em 1899 a população total saltou para 49,7 mil, dos quais, 4,5 mil europeus. Cerca de 10% da população curitibana no último ano do século passado era formada por imigrantes alemães, poloneses, italianos, australianos, ucranianos e de outras nacionalidades. Com eles, os curitibanos tiveram acesso às idéias defendidas pelo positivismo de Augusto Conte, em voga na Europa do fim do século XIX. Os positivistas ditaram a forma de modernização de Curitiba no início do século XX. A ‘‘modernização conservadora’’ da sociedade local deve muito aos preceitos positivistas.
A professora e historiadora Etelvina Trindade lembra que a imigração européia trouxe a Curitiba poetas, jornalistas, pedagogos, historiadores, cultores da geografia, etnógrafos, escritores, médicos, cultores do direito. Esse profissionais passaram a conviver com o curitibano tradicional, que fazia parte do ciclo do tropeirismo, da exploração da madeira e da erva-mate. Em geral, trabalhadores braçais ou comerciantes.
Uma das maiores contribuições da ebulição intelectual da última década de 1800, consequência da imigração européia, teve como efeito imediato a ampliação da rede de ensino de Curitiba. Em 1893 existiam apenas três prédios em Curitiba destinados exclusivamente ao ensino. Vinte anos depois eram dez grupos escolares e cerca de 25 escolas isoladas na capital. Também é de 1892 a idealização do projeto de fundação de uma Universidade em Curitiba. O projeto se concretizou em 1912, quando começou a ser construído um prédio na praça Santos Andrade para abrigar os cursos de medicina, cirurgia, engenharia e preparatórios.
O combate ao analfabetismo no fim do século passado foi um dos principais determinantes para o desenvolvimento econômico e social da capital paranaense no século XX.
Se a miséria no campo e as guerras entre nações de meados do século XIX foram os grandes incentivadores da imigração européia para o Brasil, a ‘‘revolução verde’’ da agricultura brasileira a partir da metade desse século fez o mesmo com a população rural brasileira. Os migrantes paranaenses trocaram o interior pelas perspectivas de crescimento das grandes cidades. Em 1975 o Produto Interno Bruto (PIB) de Curitiba era de US$ 1,15 bilhão. Em 1996 ultrapassava US$ 11,47 bilhões. A renda per capita do curitibano em 1980 estava em US$ 2,1 mil por ano, similar à média do Estado, que era de US$ 2 mil. Em 1996, a renda per capita ultrapassava US$ 7,8 mil e a média estadual ficava em US$ 5,2 mil.
As correntes migratórias internas, que provocaram um crescimento da população de Curitiba em mais de 10% ao ano na década de 60, promoveu uma ‘‘renovação’’ social na capital do Paraná. Esse processo, que durou mais de duas décadas, ofereceu a condição que faltava para o grande salto econômico da cidade no século XX: mão-de-obra. De capital quase sem periferia, Curitiba passou a contar com o excedente de trabalhadores necessário para a implantação das novas empresas na cidade industrial e região metropolitana.