Enquanto muitas mulheres tentam ter ou manter seus filhos, outras simplesmente desprezam a oportunidade. Só nos quatro primeiros meses deste ano, o SOS Criança de Curitiba já atendeu 751 ocorrências envolvendo violência doméstica cometida pelos pais contra os filhos. Números atribuídos principalmente às mães, que passam a maior parte do dia com as crianças.
A agressão familiar e a negligência são as ocorrências mais comuns. Mas há ainda casos de abuso sexual, exploração econômica e até mesmo abandono. Entre os casos registrados no ano passado, 208 eram de agressão e 143 de negligência. Casos que se divulgados abertamente deixariam, com certeza, muitas outras mães indignadas. Entre elas, as próprias mães presidiárias, que não medem esforços para ficar perto de seus filhos.
Aguardando apenas sua extradição para a Bolívia, S.P.P, de 38 anos, já cumpriu pena de seis anos no Presídio Feminino, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, por tráfico de drogas. Mãe de quatro filhos, dois brasileiros e dois bolivianos, teve como companheiros de isolamento dois deles que foram mantidos na própria creche do presídio. Os outros, pretende ver o mais rápido possível, assim que forem conseguidas as passagens para a viagem.
‘‘Era o que eu mais queria neste dia das mães’’, conta S.P.P. ‘‘Ver meus dois filhos, com quem não falo há seis anos. Sei que vai ser um reencontro difícil. Que vou ter que começar tudo de novo.’’
Mãe e ‘‘pai’’ de família, S.P.P. conta que só entrou na vida do crime por causa dos filhos. Uma opção para tentar sustentá-los com um pouco mais de dinheiro. ‘‘Nenhuma de nós, que está aqui hoje, quis cometer um crime. Mas somos mães que nos desesperamos quando encontramos algumas portas fechadas’’, diz ela. ‘‘Só não consegui ainda contar para meus filhos porque estou aqui e que o lugar é um presídio. Digo que devo para a Justiça e por isso trabalho aqui.’’
Bem mais nova e menos experiente, L.C., foi presa quando tinha pouco mais de 18 anos. Mulher de um traficante morto numa perseguição policial, em Medianeira (74 quilômetros a Oeste de Cascavel), ficou sem ter como sustentar os dois filhos e uma nova gravidez. O caminho foi o mesmo de S.P.P., o tráfico de drogas, já iniciado pelo marido.
‘‘Ninguém me dava emprego porque eu estava grávida e era viúva de um criminoso’’, conta ela. ‘‘Caí no mundo fazendo coisa errada para poder sustentar meus filhos. Hoje vejo que não valeu a pena. Eles estão com outras pessoas, enquanto eu estou aqui, sozinha.’’
Para ela, a única esperança é conseguir ter por perto o filho do meio, que hoje vive com a família do pai. ‘‘Já tinha deixado o mais velho com a minha mãe, o mais novo com uma irmã, mas não tinha quem ficasse com mais um. Só por isso ele foi para a família do meu marido. Mas soube que ele vem sendo muito mal tratado e agora prefiro que ele venha ficar comigo, aqui mesmo no presídio.’’ De acordo com a direção do Presídio Feminino, um pedido de busca e apreensão do menino já foi encaminhado para o juizado de Medianeira. ‘‘Seria o melhor presente que eu poderia ganhar neste domingo’’, comenta L.C. ‘‘É muito difícil ficar longe deles.’’
O Presídio Feminino tem hoje 146 detentas. Mas apenas as que têm os filhos na creche podem se revezar no trabalho com as crianças. Ao todo são 16 alunos com idades que variam de zero a 7 anos. A grande maioria, filha de mães presas pelo artigo 12, o tráfico de drogas.

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