Há 80 anos era criado o Cine Theatro Municipal de Londrina
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sábado, 23 de janeiro de 2021
Vitor Ogawa - Grupo Folha 
Inaugurado em 1940, O Cine Theatro Municipal enchia de magia o número 187, da avenida Rio de Janeiro, entre a avenida Paraná e a rua Sergipe, no Centro de Londrina. O dia exato da sua inauguração foi na terça-feira dia 2 de julho e para a sessão de estreia reproduziu o filme “60 anos de Glórias”, do diretor britânico Herbert Sydney Wilcox, lançado em 1938.

Segundo o professor de arquitetura da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Humberto Yamaki, a edificação media 15 metros de frente e 50 de fundo e comportava 800 poltronas. “Era dividida em hall, plateia de 600 poltronas, balcão de 200 poltronas, palco, corredor para a saída de emergência e quatro sanitários.
A participação de mestres carpinteiros japoneses é evidente no formato do telhado em estilo nipônico Irimoya”, destacou. O estilo consiste em cobertura de grande inclinação, que exige habilidades especiais em sua construção e, por vezes, pode resultar num intrincado volume de várias águas.
O valor gasto para construir o cinema foi de 350 contos de réis e só os aparelhos de projeção e som da marca alemã Zeiss-Ikon tinham sido adquiridos por 70 contos de réis, valores assombrosos para a época.
Embora o nome Cine Theatro Municipal possa dar a entender que tenha sido construído com verba do município, não houve investimento público no espaço. O professor Paulo César Boni cita, em seu livro Memórias Fotográficas, que o jornal Paraná-Norte promoveu um concurso, em que foram apresentadas 47 sugestões e os três nomes finalistas foram: Cine Theatro Guarany, Cine Theatro Primor e Cine Theatro Municipal. O autor da sugestão vencedora recebeu 100 ingressos de prêmio.
Além das sessões de cinema, havia apresentações musicais, festas e bailes de Carnaval.

Irmãos Nishiyama & Cia : O nome por trás da magia do cinema em Londrina
A razão social do Cine Theatro era Irmãos Nishiyama & Cia, os empreendedores do negócio. Quem ficava à frente da administração do espaço era Satoro Nishiyama, que também era sócio com o irmão em outro empreendimento, localizado em um galpão de madeira que existe até hoje, na rua Santa Catarina, a Máquina de Arroz Londrina.
“O cine foi construído na época em que nasci, mas a primeira lembrança que tenho de lá foi quando tinha cinco ou seis anos. Eu assisti muito filme lá”, relata Takeki Nishiyama, filho de Satoro, explicando que eram exibidos filmes de todos os gêneros. “Tarzan, Durango Kid, faroeste e seriados. Também passavam filmes japoneses, mas naquela época eu praticamente não assisti, porque não entendia japonês", explica. Ele se recorda que no local havia bomboniére e lá também se vendia pipoca e amendoim.

Naquela época a avenida Rio de Janeiro não tinha asfalto. “Era tudo terra. Na frente do cinema tinha aquela peça de ferro que o pessoal limpava o sapato. O chão sujava, mas não ficava tão aparente. Ficava vermelho, mas era tudo dessa cor naquela época. O tapete e as cortinas eram vermelhos.”
Na ante sala havia um piano e eram executadas músicas antes de cada exibição. “Quando tinham shows colocavam o piano em um fosso da orquestra na frente do palco, mas normalmente ele ficava na sala de espera. Enquanto o pessoal esperava o filme tinha alguém tocando piano e eram músicos locais que deviam ganhar cachê”.
Dois lanterninhas eram os responsáveis por descerrar as cortinas antes da exibição dos filmes. Eles recebiam esse nome porque permaneciam munidos com lanternas e eram responsáveis por pedir silêncio no ambiente ou a eles cabia acompanhar os espectadores atrasados até um lugar vago.
Fuad Sergio Ferreira, 87, era um dos frequentadores. Ele teve uma loja ao lado do cinema, chamada Sergio Magazine. Segundo ele, todos iam bem elegantes ao cinema. "Era a moda da época. Os homens iam engravatados e as mulheres de vestido. Foi uma moda importada da Europa, mas nosso clima é extremamente quente e não temos nada a ver com aquilo. Tenho boas lembranças. Era uma das boas coisas que tinham na época em Londrina".
'Meu pai era visionário'
O pai de Takeki Nishiyama, Satoro Nishiyama veio de Cambará (Norte Pioneiro) para Londrina em 1934. Aqui fundou a máquina de arroz e o cinema com o irmão. “Dava para conciliar os dois. Ele era muito visionário e tinha confiança nos gerentes, que tocavam quase tudo. Ele também tinha cinco carros de aluguel, que ficavam com os motoristas", conta Takeki, que trabalhou com o pai na máquina de arroz.
Ele se recorda que ajudava a confeccionar os bilhetes de ingresso, que eram todas selados. "Tinha que passar a cola e aplicar o selo em cada uma delas”, relembrou. “Esses bilhetes eram feitos em uma garagem na rua Brasil”, detalhou, informando que as sessões eram sempre lotadas. "No sábado e domingo tinham filas e as matinês eram sempre lotadas”, destacou. Segundo ele, o público japonês era bem grande. “Ficava completamente lotado. Aqui tinha uma colônia grande e era o único local que passava filmes japoneses”, destacou.
Ele relata que na época da guerra foi nomeado um interventor para administrar o cinema. “Não foi um confisco, mas, por ser japonês, meu pai não podia 'mexer' com cinema. A gente achou que ia perder tudo, mas esse interventor era muito bom. Ele cuidou do negócio e devolveu tudo para o meu pai”, conta.
Em 1954 veio uma geada forte que dizimou boa parte das plantações de Londrina e com ela chegou a crise. “Era para ele construir o edifício Tókio com o Haruo Ohara e com o Tomita. Me recordo que tinha a planta do prédio em casa, mas depois da geada os acionistas não conseguiram completar a cota e ele vendeu a parte dele. Mudamos para São Paulo em 1955 e meu pai vendeu o imóvel para o dono do antigo Cine Londrina. O Cine Theatro Municipal virou Cine Jóia”, destacou.
INCÊNDIO
O fim do espaço como teatro e como cinema ocorreu na madrugada do dia 10 de novembro de 1975, quando o imóvel foi consumido por um incêndio.
O Cine Theatro Municipal foi a quarta sala de exibição de filmes na cidade. A primeira sala foi o Cine Teatro Nacional, inaugurada em 1933 na esquina da avenida Duque de Caxias com a rua Santa Catarina. A sala ficava em uma parte da pensão de Misael de Almeida, que era improvisada como cinema.
Posteriormente, Antônio Augusto Caminhoto passou a exibir filmes em uma máquina de arroz, em 1934, na antiga rua Cambé, que depois se tornou rua Quintino Bocaiúva. Logo ele se mudou para o imóvel ao lado, criando o Cine Londrina. Quatro anos depois, em 1938, é criado o Cine São José (na rua Minas Gerais). Takeki se recorda que seu pai era muito amigo de Caminhoto e foi ele o inspirador para que se enveredasse no ramo.

Espaço foi decisivo para construção de um imaginário coletivo
Para o cineasta Rodrigo Grota, a existência do Cine Theatro Municipal (e das outras salas pioneiras nos anos 1930 e 1940 em Londrina) foi decisiva para a inauguração de um espaço afetivo e lúdico no qual a população local compartilhava e construía um imaginário coletivo. "Londrina era uma cidade nova e em crescimento: as salas de cinema eram frequentadas por pessoas das mais variadas classes sociais. Nesse sentido, essas salas cumpriam um papel social muito rico: elas eram ao mesmo tempo o espaço virtual do sonho, da fantasia, das aventuras vividas pelo público, e também um espaço concreto da troca, do encontro, da partilha do sensível."
No entanto, não custa lembrar: por mais que uma sala de cinema pretenda ser um ambiente democrático, há uma certa divisão social que sempre será mantida. "No caso da Londrina dos anos 1940 e 1950, há relatos de sessões de cinema específicas para grupos marginalizados socialmente. Isso nos ajuda a relembrar que a trajetória de Londrina não é apenas a história idealizada de crescimento e progresso: houve, como ainda existe, muita desigualdade e preconceito.", apontou.
Segundo Grota, certamente houve uma influência do cinema na produção cultural da cidade. "Basta lembrar que dois daqueles que para mim são os nossos maiores artistas - o fotógrafo Haruo Ohara (1909-1999) e o músico Arrigo Barnabé (1951) - se alimentaram muito do imaginário do cinema em suas produções. Haruo assistia aos filmes japoneses que chegavam a Londrina, assim como via a produção local do colega Hikoma Udihara (1882-1972)."
Os filmes do Udihara eram exibidos para os integrantes da colônia japonesa em lençóis estendidos em um local improvisado. "Eram filmes silenciosos. Uma das filhas do Haruo me contou que ele admirava a obra de Kurosawa. Em alguns dos retratos realizados pelo sr. Ohara, aliás, podemos notar claramente a influência do cinema: a tendência a enfatizar a solidão de uma personagem em meio a uma paisagem ampla. O cinema, devido à sua natureza industrial (de distribuição em massa) era em Londrina, ao lado do rádio, o meio mais rápido de se conectar com o mundo cultural até meados dos anos 1950", destacou.
"Na estética do Arrigo, notamos uma fusão da cultura clássica e da arte popular, algo que o próprio cinema brasileiro vinha fazendo com filmes como O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla. O próprio Arrigo se assume como um grande admirador do cinema japonês desde a sua adolescência. Cito esses dois casos, pois são os que conheço de forma mais próxima. Mas é bem provável que o cinema tenha influenciado também parte da produção local em outras áreas, como no Teatro nos anos 1950 e 1960. Seria tema para um ótimo estudo, aliás!", apontou Grota.


