HÁ 40 ANOS - Memórias de um desastre que estremeceu Londrina
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domingo, 13 de setembro de 2009
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Passava pouco das 20 horas e a jovem dona de casa Sebastiana Rebeque, então com 27 anos, bordava uma blusa na sala quando ouviu o motor de um avião se aproximando. Acostumada ao ronco das turbinas por morar próximo ao aeroporto, ela estranhou que o ruído aumentava em vez de cessar. Abriu a porta e, diante de si, viu aquela monstruosa carcaça de lata explodir em chamas praticamente em seu quintal, na Zona Leste de Londrina. Transformava-se ali na única testemunha ocular do maior acidente aéreo da história londrinense, e do Paraná, ocorrido numa noite de domingo, 14 de setembro de 1969, que vitimou 20 pessoas.
Hoje com 67 anos, Sebastiana ainda se emociona ao puxar na memória o fio da tragédia que completa hoje 40 anos. Ela, o marido Osmar Rebeque e os primeiros três dos seis filhos do casal moravam numa casa que ficava dentro do antigo Canil da Prefeitura, localizado ao lado do Horto Florestal e distante cerca de um quilômetro da pista do Aeroporto de Londrina. Impulsionado pela riqueza do café, o sobe e desce de aviões na época era frenético. Sebastiana recorda que aquele domingo transcorreu com a tranquilidade costumeira no recanto repleto de chácaras ainda pouco urbanizado. Como fazia todos os domingos à noite, o homem da casa tinha saído para compor o auditório da Rádio Londrina. Ela ficou cuidando das crianças.
Na fresca noite de final de inverno, Sebastiana aproveitava o tempo bordando uma blusa quando percebeu que um avião sobrevoava a região. Estranhamente, o ronco dos motores aumentava em vez de diminuir. Levantou-se, saiu até à porta e foi surpreendida por uma imagem aterradora: um avião Douglas DC-3, da Vasp, espatifado no chão. ''Ouvi o barulho e logo vi uma bola de fogo no quintal, que por muito pouco não atingiu nossa casa. Ouvia os gritos no meio dos pedaços do avião mas não dava para fazer nada porque o fogo já tinha tomado conta de tudo'', lamenta.
Osmar, falecido em 2007, chegou mais tarde e acalmou a ela e às crianças. Da tragédia, Sebastiana guarda as lembranças, uma janela do avião que ficou intacta e uma dúzia de fotos dos destroços tiradas pelo marido, hoje os únicos registros que resistiram ao tempo. Anos mais tarde, em um português precário mas carregado de emoção, ele anotou no verso das imagens sua impressão sobre o acidente: ''O dizastre ocorido em Londrina. No dia 14 de setembro de 1969 um avião da Vaspe DC3 caiu, encendiou-se. 20 peçoas moreram estraçalhadas entres as feragen do avião''.
Moradora antiga do bairro, Jandira das Dores Trevisoli também tinha 27 anos na data do acidente e não esquece do que presenciou: ''ouvimos a explosão e quando chegamos perto todos já estavam mortos.'' Ela afirma que a tragédia poderia ter sido muito maior não fosse a perícia do piloto em desviar das casas. Jandira diz que o local do acidente atraiu centenas de curiosos nos dias seguintes. Um deles foi o funcionário público Luiz Ramazotti, que tinha só 11 anos. ''Foi uma coisa horrorosa'', rememora ele, que hoje trabalha numa creche que fica no local onde a aeronave caiu. ''Fico meio cismado quando um avião fica dando voltas aqui no bairro'', confessa.
Para controlar a multidão, a Polícia Militar foi convocada para guardar o local. Entre os policiais, estava o então recruta Luiz Carlos Rodrigues, de apenas 19 anos. ''Foi minha primeira grande missão. Ainda era um recruta e, para mim, foi uma coisa funesta'', afirma. Ele descreve que havia muitas árvores quebradas, uma das turbinas estava enterrada no chão, a carcaça ainda fumegava e pairava no ar um odor de carne assada misturado com combustível e perfume: ''era um cheiro horrível, sinistro, que está na minha cabeça há 40 anos''. Hoje na reserva, o policial comenta que encontrou entre os destroços um penico que teria sido colocado na cabeça de uma criança pela mãe na tentativa de salvar a vida do filho. ''estava cheio de restos de cabelo dentro''.
Infelizmente, nenhum dos 14 passageiros e seis tripulantes sobreviveu à queda. O único que teve uma remota chance foi um dos comissários de bordo, Aníbal Ferreira. Ele teria sido ejetado do avião e, mesmo assim, teve queimaduras graves em quase todo o corpo. Foi socorrido com vida mas faleceu na Santa Casa dois dias depois.


