Londrina - A proposta de um plebiscito sobre a administração da água e o esgoto em Londrina, ou por concessão ou a cargo do município, apresentada à Câmara em 22 de outubro passado, chegou um mês antes de a lei municipal nº 2337 completar 40 anos. Sancionada em 22 de novembro de 1973, a lei concedeu os serviços por 30 anos, mas com as prorrogações emergenciais já se estende por quatro décadas, uma "troca" que facilitou, a princípio, o financiamento de transformações urbanas sem as quais a grande mobilidade hoje seria impossível.
Numa decisão a que se opunham secretários municipais e agentes da comunidade, finalmente "avalizada" após consultas e debates, o prefeito José Richa transferiu o Serviço Autárquico de Saneamento (SAS) à Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), contrariando inclusive a promessa que fizera na campanha eleitoral. Quem conta a história é o engenheiro José Pedro da Rocha Neto, em seu livro "Acima das Nuvens o Céu é Sempre Azul" (edição do autor – 2010), revelando que a Sanepar, ante a resistência de setores na Prefeitura, se contentaria com menos: "faria o sistema de captação e adução do Tibagi e o SAS compraria a água", proposta ignorada na discussão adiante.
Conforme o Plano Nacional de Saneamento (Planasa), instituído em 1971, os financiamentos federais para o setor se concentrariam nas companhias estaduais e os municípios deveriam transferir a elas o que haviam implantado; não mais receberiam dotações diretamente. Então, o titular da Superintendência de Desenvolvimento de Londrina (Sudesil), engenheiro Alceu Vezozzo, "convencido de que o SAS seria entregue", queria uma compensação que permitisse fazer infraestrutura semelhante à Cidade Industrial de Curitiba.

Atestado para o BNH
Em 1973, José Pedro era presidente do Serviço de Pavimentação de Londrina (Pavilon), participou dos debates e conta que o prefeito tentou manter o SAS, argumentando com a excelência (nem Curitiba dispunha de tratamento de esgoto) para sensibilizar o presidente do Banco Nacional de Habitação (BNH), Rubens Costa, a conceder empréstimos diretos.
"O presidente do BNH vai até o vale do córrego Água Fresca, onde Richa mostra a parte saneada. Em seguida, Rubens Costa vai ao SAS, onde João Bespalhok (engenheiro-presidente) e equipe o aguardavam" — acompanhou José Pedro.
O prefeito fez "uma belíssima exposição", destacando a estação de tratamento de esgoto, "então a maior da América do Sul, e valendo-se de um mapa apontou a solução Tibagi (água)".
Londrina recebera, em 1969, empréstimo do BNH (3,8 milhões de cruzeiros), pago com a própria receita do SAS. Richa, porém, ia precisar de muito mais, para construir a Avenida Dez de Dezembro ("Via Expressa"), além de obras indispensáveis à continuidade do saneamento. José Pedro recorda que o presidente da Sanepar, Munir Saab, não era dado à "diplomacia", tinha "um tom de voz impositivo", mas encontrou em João Bespalhok, presidente do SAS, adversário à altura. Bespalhok falava alto "ao se empolgar", proclamando que não via a necessidade de entregar o SAS, daí o recuo de Saab, a Sanepar poderia ficar só com o Projeto Tibagi.
Eleito pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), com 11 vereadores de seu partido entre os 21, Richa assumiu em 31 de janeiro de 1973, abrandou a retórica oposicionista ao governo ditatorial da República e apoio da bancada arenista (Aliança Renovadora Nacional), formalizado numa "carta de princípios", condicionado a exigências, entre as quais respeito à posição "contra e encampação do SAS pela Sanepar".


Leia também:

- Convencendo a 'plateia afiada'

- Planasa era imune ao trânsito dos prefeitos

mockup