Guarda Mirim: recompensa e dificuldades
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sábado, 16 de julho de 2005
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Entre os milhares de trabalhadores londrinenses há uma parcela considerável que tem algo em comum: deram os primeiros passos em uma profissão dentro da Guarda Mirim. Não há levantamento que mostre quantos adolescentes iniciaram sua carreira ali, mas em 40 anos de existência da Guarda que começaram a ser comemorados oficialmente na noite da última quarta-feira, com um culto ecumênico milhares de garotos puderam chegar a empresas, instituições, bancos e, em muitos casos, fazer carreira ali dentro.
''Na Guarda Mirim, recebi a base dos valores que serviram para a minha vida profissional'', revela o coordenador do setor de Contabilidade e Finanças do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Elvison Aparecido Domingues. Aos 14 anos ele foi matriculado pela família, que tinha a preocupação de dar ao menino outra opção que não fosse as ruas. No início da década de 80, época em que Domingues passava as tardes na Guarda, a rotina seguia um padrão militar. ''Treinávamos inclusive a ordem unida'', lembra. As tardes também eram preenchidas com a prática de alguns esportes, aulas de datilografia e cursos profissionalizantes.
Também foi graças à Guarda que ele chegou ao Instituto Agronômico. ''Na época, os empregos mais cobiçados pelos garotos de lá eram no Iapar e na Caixa Econômica Federal. Entrei aqui como mensageiro, e não saí mais.'' Nestas duas décadas, Domingues prestou dois concursos, fez uma faculdade e uma pós-graduação. ''Aquela fase da adolescência foi fundamental para minha formação ética e moral.''
Também para outro ex-guarda, Carlos Pelegrini, os valores recebidos na instituição são úteis até hoje: ''Estou na Sercomtel há 13 anos, e hoje atuo na área de responsabilidade social da empresa. A Guarda Mirim abriu as portas para mim na adolescência, me ensinou que todos têm um potencial que precisa apenas ser trabalhado. O que faço hoje é uma espécie de retribuição ao que recebi.'' Além de trabalhar na Sercomtel, Pelegrini é presidente de uma ONG que promove o resgate de adolescentes e jovens, a Associação João XXIII.
Em muitos casos, a confiança no trabalho da Guarda Mirim é tanta que a instituição já virou uma tradição na família. A bisavó do adolescente Hugo Eduardo de Oliveira que o diga. Foi ela que matriculou o menino, assim como fez com três netos, inclusive o pai de Hugo. ''Eles (familiares) acreditam que aqui vou ter acesso mais fácil ao mercado de trabalho.'' Certeza que é compartilhada pelo próprio adolescente: ''Estou aprendendo muita coisa que em outro lugar não aprenderia.''
Hugo refere-se às atividades sócio-educativas, profissionalizantes e aulas de aperfeiçoamento profissional, administradas junto aos garotos que já estão trabalhando como aprendizes em empresas, no contraturno escolar. Segundo uma das diretoras da Guarda, Luíza Leonor Cavazotti e Silva, a instituição atende atualmente 370 garotos carentes, de 14 a 18 anos, e há uma fila média de espera de 120 adolescentes.
Como outras instituições filantrópicas, porém, a Guarda Mirim convive com dificuldades, e a principal delas é de ordem financeira. De acordo com Luíza, a verba fixa que a prefeitura repassa (pouco mais de R$ 1,00 por dia por garoto) não é suficiente para manter todos os projetos e pagar os educadores. A saída é recorrer aos convênios com empresas, renovados anualmente. ''Nunca sabemos como vai ser no ano seguinte. É muito difícil porque sem dinheiro não tem educação'', lamenta a diretora.


