Kraw PenasFernando Plotecya, comerciante, lembra que a cidade ‘‘morreu’’ por alguns meses após o assassinato de Evandro. Segundo ele, a população de Guaratuba até hoje não superou o susto. ‘‘Eu mesmo convivi com a família (Abagge). Todos eles eram meus clientes no posto de gasolina e sempre pareceram boas pessoas’’A população de Guaratuba, no Litoral paranaense, vive num pacto de silêncio sobre o Caso Evandro. Ontem, as pessoas acompanharam atenta e discretamente as informações sobre o julgamento de Celina e Beatriz Abagge, mulher e filha do ex-prefeito da cidade, Aldo Abagge, já falecido. Poucos falam abertamente sobre o assunto, mas todos são unânimes em afirmar que a cidade jamais foi a mesma desde a morte do menino, há seis anos, e a acusação que recaiu sobre Celina e Beatriz.
Na Escola Municipal Olga Silveira, onde Evandro estudava, ninguém aceita se identificar para falar sobre os momentos vividos pela comunidade na ocasião. Uma das funcionárias diz que não há provas para incriminar as Abagge e por isso prefere não tomar partido. A revolta da população na época, segundo ela, ‘‘foi coisa de gente ignorante’’. Uma outra funcionária conta que trabalhou com Celina Abagge numa creche dirigida pela ex-primeira-dama do município, que, segundo ela, tinha comportamento exemplar. Segundo a funcionária, a quebradeira e as passeatas foram promovidas pela mesma pessoa que teria organizado a farsa. ‘‘Essa pessoa ainda vive em Guaratuba’’, diz.
A mãe do menino Evandro, Maria Caetano, trabalhou na Escola Olga Silveira por alguns anos. Se estivesse vivo, Evandro teria 13 anos de idade e, provavelmente, estaria estudando na escola ao lado, onde seus colegas cursam a sétima série e sua mãe trabalha atualmente. A diretora não permite que se converse com os alunos no local.
Evandro desapareceu na manhã do dia 6 de abril de 1992, no caminho entre a escola e sua casa, que fica a apenas duas quadras. Ele teria ido fazer um lanche durante o intervalo e nunca mais apareceu. A família do menino ainda vive na mesma casa. Ontem, nem mesmo a avó de Evandro quis dar entrevista. ‘‘Isso é coisa para os advogados’’, disse virando as costas.
Jorge Tavares Lucas, vizinho da serraria de Aldo Abagge, onde teriam ocorrido o ritual de magia negra e o sacrifício de Evandro Caetano, em 1992: ‘‘Pra quem é de fora ninguém fala, mas aqui não se conversa sobre outra coisa até hoje. E para a maioria não há dúvidas de que foram elas mesmo’’
Do outro lado da rua, mora o primo de Evandro, Douglas Ramos, de 16 anos, que ainda se lembra com saudade das brincadeiras de ‘esconde-esconde’ aos domingos, na casa da avó. ‘‘A gente morava em bairros distantes e só se via aos domingos, mas ele era muito alegre e brincalhão’’, conta. Douglas diz que as pessoas da cidade têm medo de falar porque temem que as Abagge sejam absolvidas e reajam contra quem as acusou. Mas ele destaca que a única versão do crime é a da acusação.
A serraria da família Abagge, onde teria acontecido o ritual de magia negra em que Evandro teria sido sacrificado, nunca mais foi ativada e, nos últimos seis anos, só os caseiros frequentam o local. Na casa em frente, Maria Ramos Lucas conta que trabalhava na serraria empilhando madeira vendida para fabricação de lápis. Ao saber das acusações contra as Abagge, deixou o emprego. Seu marido, Jorge Tavares Lucas, diz que a cidade ainda está traumatizada.
O casal, cujo filho tem a idade que teria Evandro, lembra que as professoras e a própria polícia recomendaram que os pais levassem e buscassem as crianças na escola e não as deixassem sozinhas pelas ruas. Eles contam que as reuniões na serraria aconteciam à noite. ‘‘Pra quem é de fora ninguém fala, mas aqui não se conversa sobre outra coisa até hoje. E para a maioria não há dúvidas de que foram elas mesmo’’, diz Jorge.
Apesar de declarações contrárias às Abagge, principalmente de pessoas mais simples, não existe mais o clima de revolta contra as acusadas. O que existe é muita dúvida e mistério sobre o caso. Na casa da família, apedrejada por pessoas que queriam fazer justiça com as próprias mãos em 1992, mora um filho adotivo de Celina Abagge. Ontem não havia ninguém em casa.
Um motorista de táxi, que também preferiu não se identificar, disse que a população está dividida. Ele acha que não há provas suficientes para incriminá-las. ‘‘Foi uma surpresa para a cidade. Quem convivia com elas sabe que nunca houve nada de suspeito’’, sustenta.
O empresário Fernando Plotecya,33, lembra que a cidade ‘‘morreu’’ por alguns meses, a população até hoje não superou o susto e não sabe o que dizer. ‘‘Eu mesmo convivi com a família (Abagge). Todos eles eram meus clientes no posto de gasolina e sempre pareceram boas pessoas’’, diz Plotecya.
Diógenes Caetano, tio de Evandro e um dos principais acusadores de Celina e Beatriz Abagge, ainda vive em Guaratuba, onde tem uma confeitaria na rua principal. Ontem, ele também estava em São José dos Pinhais acompanhando o julgamento. No cemitério, o jazigo onde está enterrado Evandro e outras pessoas da família estava cheio de flores e velas colocados pela mãe do menino na tarde de domingo.

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