As aulas nas escolas municipais voltam nesta terça-feira (4), mas algumas crianças carentes retornarão à rotina estudantil de mochila vazia. Pensando em ajudar quem precisa, projetos sociais e grupos espontâneos realizaram campanhas de arrecadação de material, mas nem todos tiveram sucesso. Com o baixo número de adesão, algumas estenderam o prazo de coleta para atender à demanda.

Imagem ilustrativa da imagem Grupos fazem campanha para arrecadar material escolar em Londrina
| Foto: Lais Taine - Grupo Folha

“No ano passado, a gente fez a campanha para atender 60 crianças e conseguimos atingir 210 alunos da fase 1, que é do C3 ao 5º ano, e recebemos de uma gráfica 1.500 cadernos universitários para os alunos da fase 2, do colégio estadual. Este ano, nem para o municipal conseguimos”, comenta Rita de Cássia Lemos Barbosa, 37, que atua na Amvibe (Associação de Mulheres do Vista Bela).

Ela conta que, na campanha anterior, a associação teve o apoio da ASA (Associação Social Adventista), que permitiu o uso de uma sala para o estoque dos materiais. Nesse ano, as mulheres começaram a coleta no dia 20 de janeiro e pouco conseguiram até agora. “Nem um lápis! Tivemos retorno de algumas pessoas que disseram que vão ajudar, mas ainda é muito pouco”, revela. Atualmente, a associação tem 127 crianças do bairro cadastradas, de 4 mil em idade escolar. Por conta disso, elas estenderam o prazo de arrecadação durante todo o mês de fevereiro.

A campanha Mochila Cheia, do centro de umbanda Congá da Tia Maria Mineira, também preferiu continuar a campanha. “Estamos arrecadando ainda. Quanto mais, melhor. A gente está tentando organizar para até a primeira e segunda semana de fevereiro, mas a intenção é continuar recolhendo o ano todo para que no próximo ano já tenhamos uma boa quantidade”, explica Mariana Tavanti Cazaroli, 31, assistente no centro.

Em três anos de casa, esta é a primeira vez que é realizada a campanha, que pretende ajudar crianças em situação de vulnerabilidade social. “A gente recebe materiais escolares novos ou usados e doa. A gente conseguiu bastante, mas se a gente conseguir arrecadar o ano inteiro, vamos ter uma quantidade legal”, revela. Os materiais deste ano serão destinados ao Cras (Centro de Referência de Assistência Social), do jardim União da Vitória (zona sul).

Para Barbosa, as arrecadações são fundamentais para a saúde emocional das crianças, que já sofrem as consequências da situação vulnerável em que se encontram. No bairro Vista Bela (zona norte), há uma particularidade. “Aqui não tem escola municipal, então elas são levadas de ônibus fretado para unidades que estão em várias regiões da cidade e, muitas vezes, a criança não tem roupa adequada, vai sem comer, não tem material e se relaciona com outras que têm condições de vida melhor”, comenta ela. “Algumas relataram terem sofrido bullying e brincadeiras de mau gosto. O próprio conselho tutelar teve que intervir porque as crianças não queriam estudar mais”, acrescenta.

A atendente é mãe de cinco filhos e tem um neto, quatro deles em idade escolar, todos fazem o mesmo trajeto das crianças do bairro. “Há dois anos eu perdi o emprego e precisei de ajuda também”, recorda. Por isso, comenta a importância da campanha. “A pessoa que pensa que não pode ajudar, quando ajuda o outro, sente menos a própria dor. Eu vi mães passando por situação bem pior que a minha e não desistiram”, afirma.

Com o baixo número de material arrecadado, a Amvibe optou por continuar a campanha e entregar o material mais tarde. “Estamos programando a entrega para a última semana de fevereiro e, se aparecer algo para os alunos do estadual, entregaremos no começo de março”, avalia. Os interessados podem ajudar adotando listas de material completas ou podem doar itens avulsos. “A gente aceita porque tem pessoas que também não podem ajudar com a lista completa e com os itens avulsos montamos os kits, pois aqui temos crianças que não têm nada, nem para ir ao primeiro dia de aula. Algumas mães conseguem comprar um caderno, outras nem isso”, revela.

SERVIÇO
Informações sobre doações para a Amvibe (Associação das Mulheres do Vista Bela) estão na página da associação no Facebook, por meio do Whatsapp da Rita Barbosa (43) 99918-8173 ou telefone: (43) 99933-8877.

A campanha Mochila Cheia, do Congá da Tia Maria Mineira, tem pontos de arrecadação:

- Bags e Cia, loja 183, 2º andar - Camelódromo de Londrina (em horário comercial)

- Centro de Umbanda Congá da Tia Mineira, rua Iguape, 139 – jardim Agari (terças-feiras, das 19h às 22h).

Informações pelo Whatsapp: (43) 99987-0630, com Mariana / (43) 99636-4171, com Silvia.

Família pede ajuda

Sem cadernos e poucos lápis, os três filhos em idade escolar de Michele da Silva Porto, 33, terão que perder os primeiros dias de aula até que a família consiga o dinheiro para comprar os itens essenciais. Essa é a primeira vez que eles vivem essa situação, após o pai, Thiago Henrique Porto, 34, ter perdido o emprego, há oito meses.

A família mora em um barraco no jardim Cristal (zona sul) e vive basicamente do auxílio do governo, com R$ 426 mensais, voltados praticamente para itens de necessidade básica, como alimentação e higiene. Diante da dificuldade, Michele pediu ajuda em um grupo no Facebook. “Foi a primeira vez que eu pedi material, como meu esposo está desempregado e eu não estou trabalhando, a situação está apertada. Está para começar as aulas e eu não tenho dinheiro para comprar os materiais”, revela. Eles possuem quatro filhos, excetuando-se a bebê de quatro meses, todos os outros estão em idade escolar, a mais velha tem 12 anos.

Michele postou uma foto das três listas de materiais com itens que possuem de anos anteriores já riscados. Faltaram apenas alguns cadernos, lápis e borracha. “Eu sempre comprei o material deles. Agora eles precisam de pelo menos caderno e lápis para começar, as mochilas dá para aguentar mais um pouco sem”, analisa. Caso eles não consigam, os pais avaliam não levar as crianças para a escola nos primeiros dias. “Pensei em mandar só o primeiro dia para eles saberem onde é a salinha deles e depois esperar receber o Bolsa Família, que vem na outra quarta-feira (12)", conta.

Thiago é pedreiro, trabalhava em uma fazenda em Apucarana (Região Metropolitana de Londrina), mas foi demitido após uma crise com a seca. “Aí comecei a trabalhar em obras, o serviço que eu consegui pegar no final do ano passado, no primeiro dia, eu cortei o dedo. Agora fico pegando serviços pequenos”, conta o pedreiro.

Apesar das dificuldades, os pais não pensam em tirar as crianças da escola. “Todos estão seguindo certinho, sem reprovação. Eles nunca vão parar de estudar, a prioridade aqui em casa é o estudo. A minha mais velha não tenho do que reclamar, as notas dela são boas e eu incentivo para continuar assim”, comenta a mãe. “Para faltar na escola, só se estiver acabando o mundo mesmo, senão a gente não deixa. O que a gente passa, não quer que eles passem depois”, acrescenta o pai.

Ao mostrar o material que tinham, a filha de oito anos traz o xodó, um estojo de plumas rosas que ela já usa há algum tempo. O pequeno, de seis anos, também mostra uma régua e alguns lápis. “Quero um caderno com a capa do Flash”, arranca risos da família, que desbanca “cada hora ele tem um personagem favorito diferente”. Empolgadas com o início das aulas, as crianças aguardam ansiosas, confiantes na promessa dos pais. “Eles querem, falam de qual personagem, um quer da Barbie, outro quer do Hulk, mas eu converso com eles e falo ‘a mãe vai dar um jeito de arrumar’”, sorri.

Com filhos pequenos, Michele não consegue trabalhar, por isso o pedido de ajuda. Interessados em enviar auxílio à família devem entrar em contato pelo telefone (43) 99995-9343 e falar diretamente com a mãe.

Corrente de rede social arrecada material há cinco anos

Um pedido “adote uma criança” foi publicado por Valkiria Pereira de Almeida, 34, em um grupo criado por ela mesma no Facebook. O Corrente do Bem Londrina já conta com quase 11 mil membros e há um ano se tornou projeto social no jardim União da Vitória (zona sul). A fundadora do que se tornou o Projeto IDE e fala que há cinco anos faz campanha de arrecadação de material escolar e conta com o reforço das redes sociais na divulgação. Neste ano, aproximadamente 200 crianças serão beneficiadas.

“Faz cinco anos que eu faço campanha de material escolar e o primeiro ano arrecadei material avulso, mas não deu muito certo, porque eu não conseguia atender totalmente as crianças. No outro ano, passei a fazer diferente, postava a foto das crianças com a lista de material para que ela fosse ‘adotada’ por um voluntário. Neste ano, por eu já ter o projeto, eu pedi para que as próprias mães postassem no grupo”, comenta.

Acostumada com ações solidárias, como ajuda para construção de casas, doação de roupas, sapatos e alimentos, Almeida já possui uma lista de pessoas que contribuem. Ela conseguiu que uma papelaria e estudantes de uma faculdade de Londrina participassem da campanha. A entrega da maioria dos itens foi realizada no último sábado (1º), mas a distribuição continua no decorrer da semana.

Carolina Alves do Nascimento Alvim, 41, é uma das voluntárias que sempre ajuda nas campanhas. “Eu adotei duas crianças este ano, minha mãe mais duas. Como eu tenho meus filhos, vejo a importância da educação, acho muito interessante o projeto dela, porque empodera as crianças, que vão com material novo, renovado. Às vezes, essas crianças já têm problemas em casa, mas a escola é um ambiente de igualdade”, defende.

A engenheira civil recebeu o pedido de Almeida pelo Whatsapp. “Ela foi encaminhando os pedidos e a gente falava quantas poderia ajudar. As listas completas giram em torno de R$ 100 a R$ 140. A gente compra e doa para ela, que vai até a casa das pessoas entregar, com o próprio carro dela”, conta.

Por usar o carro particular, foi criada uma vaquinha virtual para que o projeto consiga um veículo próprio. “Uso meu carro pessoal para buscar e levar, acaba ficando uma dívida de R$ 1 mil que sai do meu bolso. Exatamente pelo carro ser meu, particular, fica difícil pedir ajuda para o combustível, as pessoas não vão entender”, afirma. O projeto está em fase de regularização e sobrevive basicamente de doações.

A arrecadação de materiais escolares durou um mês, mas os pedidos de ajuda continuam no grupo do Facebook. “O Corrente do Bem é um grupo voltado a todos os tipos de doação, a gente já construiu casas, reformas, já fizemos tantas coisas...”, conta. Com o projeto ativo, o foco é na documentação da instituição para poder arrecadar verba às atividades realizadas no local, como aulas de balé, jiu-jitsu, alfabetização para idosos, entre outros.

SERVIÇO

Projeto IDE
Rua dos Assistentes Sociais, 121 - União da Vitória 4, telefone: (43) 98476-3933

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