Grupo que declarou guerra à balança se reúne em festa
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de dezembro de 1996
Apolo Theodoro 
- Vamos emagrecer, peão, senão cê vai entalar aí...!
Dentro do ônibus, olhares jocosos se viraram para a mesma direção. E viram, vermelho feito um pimentão, o balconista Benedito José da Silva, tentando, inutilmente, passar sua enorme barriga pela roleta. Benedito não achou graça nenhuma na brincadeira, mas, a partir daquela vergonha, sentiu que era hora de começar a pesada tarefa de emagrecer.
O tempo passa, o tempo voa...
- Ei, meu chapa, você não tá muito magro pra ficar aí no meio dessas gordas?
- É que você não me viu antes... Sabe quanto que eu pesava há um ano atrás? 158 quilos! Meu nome? Benedito José da Silva, 39 anos, 89 quilos...
É inacreditável! Será o Benedito? É, sim. E tá com a receita na ponta da língua: O que que aconteceu? Muita força de vontade, muitas caminhadas, cumpri a dieta, passei um pouco de fome e a comer o Tonico e o Tinoco (arroz com feijão) na hora certa, na quantidade certa, larguei a cerveja e os refrigerantes de lado..., enumera Benedito José da Silva. Foram esses os sacrifícios que ele teve de fazer para se livrar da pança, que tanto o envergonhava diante das outras pessoas. Mas ele garante que os esforços valeram a pena. Sob todos os aspectos: A saúde melhorou, as mulheres ficaram mais de butuca em cima de mim e ficou mais fácil pra arrumar namorada.
Se o Benedito está mesmo com essa bola toda com a mulherada, pouco interessa, mas que ele está feliz da vida com o novo perfil, isso está estampado não só em seu rosto, mas também nos semblantes de todas as pessoas que, como ele, participam do Projeto Obesidade do Ambulatório do Hospital de Clínicas da UEL. Eles estiveram reunidos anteontem no ginásio do Núcleo Esportivo da Universidade para uma festa de confraternização com toda a equipe que coordena o projeto.
- Aqui não tem gorda, não, só elegante!
As mulheres são maioria absoluta no projeto. Das 40 pessoas atendidas, 38 são do sexo feminino. Todas muito bem humoradas, algumas desfiam um rosário de queixas ao lembrar do tempo em que eram mais gordinhas; outras enchem a boca - epa - para falar das conquistas obtidas a partir do momento em que se engajaram no projeto e começaram a perder parte dos muitos quilos a mais que tanto as incomodavam.
Agora é muito melhor pra comprar uma roupa, sair para passear. De primeiro eu tinha vergonha até de sair na rua, as pessoas ficam olhando e comentando, a gente percebe que é da gordura da gente que estão falando, destaca a arrematadeira Ivani Aparecida, 24 anos. Ela, em 2 meses, baixou de 113 quilos para 101,9 quilos. E, se a Ivani ainda precisa emagrecer mais, o astral já mudou: Isso aqui é muito bom. Fiquei mais alegre, mais comunicativa, até minha asma melhorou.
Quando começou no projeto, há 6 meses, a dona-de-casa Mafalda de Fátima, 39 anos, pesava 104 quilos. Hoje ela está com 89. Mas esses 15 quilos a menos na estampa foram mais do que suficientes para despertar o olho gordo de muita gente. Na sua declaração, o jeito de uma vida nova:
- As pessoas começam a te notar mais, principalmente os homens, e a gente se sente bem. Eles começam a olhar, a dizer gracinhas quando a gente passa na rua. É muito gostoso quando isso acontece.
Celiane Maria, 24 anos, que baixou o peso de 96 para 89 quilos, lembra que seu maior tormento era na hora de comprar roupas - Nenhuma servia em mim - e de ir a praia. Ela conta que, de raiva, rasgou todas as fotos que tirou de maiô de tanta vergonha que ficou ao ver o quanto estava gorda. Já as broncas que Maria Helena, 52 anos, carrega do tempo em que era mais cheinha são três: sair pra comprar roupas, ir a festas e andar de ônibus.
Eu fico louca de raiva. Você vai numa loja, os vendedores te ignoram, não querem te atender, fingem que não te vêem, ignoram os gordos. E se a gente pergunta, eles respondem: Aqui não tem o número da senhora e nem te ligo, reclama Maria Helena. De ônibus, ela não gosta nem de lembrar: É um sofrimento. A barriga não passa na roleta, parece que ela é feita só pra magrelo. E das festas, Maria Helena, qual é a bronca?
- Parece que as pessoas ficam cuidando da gente. Você come um docinho assim e as pessoas já falam - É por isso que é gorda assim! - que você comeu o bolo inteiro.


