Um grupo de 80 trabalhadores do frigorífico catarinense Chapecó ocupou ontem cedo a sede do Ministério do Trabalho (MT) em Cascavel, exigindo intervenção do órgão. O grupo representa 294 funcionários da unidade de Cascavel que estão completando três meses sem receber salários. A empresa está em concordata desde o dia 9, mas as atividades no frigorífico estão paralisadas há 1 ano, sem perspectivas de reativação.
Apesar disso, os empregados vinham recebendo os salários normalmente, mesmo permanecendo em suas casas. A situação também é crítica para os 450 avicultores que forneciam para o frigorífico. Os aviários estão parados, e parte dos avicultores está acampada nas instalações do frigorífico.
A ocupação da sede do Ministério do Trabalho, no centro da cidade, foi liderada pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação. Os manifestantes se juntaram a desempregados que estavam no local, tratando de questões como seguro desemprego. ‘‘Logo os funcionários da Chapecó podem estar na mesma situação’’, comentou Valdevino Pereira de Oliveira, presidente do sindicato. Segundo ele, os trabalhadores recorrerão a Justiça para ‘‘defender seus direitos’’, mas como a demanda pode demorar, decidiram realizar o protesto para criar um ‘‘fato político’’, atraindo a atenção da opinião pública.
A indústria já chegou a ter 880 empregados, no início de 96, quando abatia 100 mil cabeças de frango ao dia. Com a crise que envolveu o grupo Chapecó (com unidades em três estados), a metade foi demitida no início de 97, restando os 294 funcionários, cujos salários são em média de R$ 250,00, pagos regularmente até junho. Segundo Valdevino Pereira de Oliveira, além dos pagamentos atrasados, também há o temor de que o FGTS não esteja sendo depositado pela empresa, cuja direção evita se manifestar publicamente. Sabe-se que o superintendente local, Genésio Garbin, tinha viagem marcada na tarde de ontem para Chapecó (SC) para discutir a situação.
Garbin deve tentar a liberação de cestas básicas para os trabalhadores, mas Valdevino Pereira de Oliveira observa que esta não é a solução. ‘‘Exigimos os salários’’. O chefe do MT na cidade, Rui da Fonseca, comunicou por telefone a ocupação do prédio ao delegado do MT no Paraná, Tércio Albuquerque. Segundo Fonseca, ao órgão cabe a ‘‘competência da fiscalização administrativa’’, mas no caso da indústria, ‘‘não há o que fiscalizar, simplesmente porque não há ninguém dentro dela’’, nem mesmo o pessoal administrativo de confiança direta da empresa.
Toda a documentação que havia nos escritórios foi retirada há cerca de quatro meses, quando os avicultores ocuparam o local, e possivelmente transferida para Chapecó. A Folha apurou que o chefe local do MT fez contato ontem mesmo com dirigentes do órgão em Santa Catarina para pedir que enviasse a fiscalização à sede da empresa naquela cidade. Nos atrasos salariais, em cada autuação que fizer o MT pode aplicar multa de 160 Ufirs (R$ 0,9611 cada Ufir). No entanto, cabe apenas à Justiça do Trabalho obrigar a empresa a fazer o pagamento dos salários.
Desespero O protesto dos trabalhadores é semelhante ao das famílias de avicultores de vários municípios da região. Eles adquiriram equipamentos e construíram aviários com dinheiro emprestado por bancos, e não podem restituir. Para a maioria das famílias, produzir frangos era a principal fonte de renda. Além da ocupação dos escritórios da Chapecó, eles já realizaram greve de fome no centro de Cascavel, e em duas ocasiões acamparam na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro (RJ).
O BNDES lidera instituições credoras dos mais de R$ 300 milhões de dívidas do grupo (o dobro de seu patrimônio). O interesse de outras empresas - entre elas a argentina Macri - de comprar o frigorífico de Cascavel esbarrou em dificuldades para a recomposição dos débitos. A própria Chapecó tentou sem sucesso conseguir dinheiro com apoio do governo do Paraná para reativar a indústria.
Os avicultores se dispunham a tocar a indústria, através de sua operativa de Produção dos Trabalhadores Rurais do Oeste do Paraná, mas não houve acordo. Segundo o presidente da cooperativa, José Lino Bergamin, os avicultores ‘‘estão virando sem-terra’’.Edson MazzettoProtestoA sede do Ministério do Trabalho foi ocupada ontem pelos trabalhadores; ao lado, o chefe da Delegacia, Rui da Fonseca, ao telefone, acionando Ministério do Trabalho em Santa Catarina para fiscalização na Chapecó; com ele, Valdevino Simões, do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de AlimentaçãoPaulo Pegoraro

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