Grupo faz greve para ser demitido
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de janeiro de 1999
Sid Sauer 
Parte dos cortadores de cana-de-açúcar da usina de álcool e açúcar Sabarálcool, de Engenheiro Beltrão (32 km ao norte de Campo Mourão) completou ontem o segundo dia de uma greve inusitada: eles cruzaram os braços porque querem ser demitidos. O motivo da greve surpreendeu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Engenheiro Beltrão e a própria empresa. Fiquei numa situação esquisita para defender os empregados, diz o presidente do sindicato, Jurandir Morisco.
Em 30 anos de sindicato nunca tinha passado por uma situação dessas, completa o sindicalista. Ontem de manhã, ele se reuniu na sede do sindicato com cerca de 70 cortadores de cana e com três representantes da Sabarálcool para tentar um acordo, mas não houve negociação. Só após a saída dos representantes da empresa é que os empregados aceitaram voltar ao trabalho hoje em troca do não desconto dos dois dias de paralisação.
Apesar da proposta ser aceita, Morisco não sabe se o trabalho volta ao normal hoje. A Sabarálcool tem mais de 400 cortadores de cana e muitos vêm de outras cidades da região, explica. Segundo ele, os cortadores de cana querem ganhar demissão para receber as férias proporcionais, Fundo de Garantia e seguro-desemprego, que somariam quantias superiores ao que é pago no período de entresafra.
Os cortadores recebem pela produção colhida (em média R$ 1,20 por tonelada), mas o piso é de R$ 143,00. Mesmo achando estranha a reivindicação dos trabalhadores, Morisco diz que entende o lado deles. As chuvas estão atrapalhando o serviço e, com isso, o salário cai, frisa. Com o fim da safra, a situação tende a ficar ainda pior, uma vez que a empresa deverá utilizar os empregados em outras funções que renderão apenas o piso mínimo da categoria. Eles argumentam que têm contas para pagar, ressalta Morisco.
O diretor operacional da Sabarálcool, Luiz Carlos Loss, disse que a greve atingiu apenas uns 15% dos cortadores de cana e que ela foi provocada por um pequeno grupo que queria provocar tumulto. Eles querem a demissão para irem trabalhar no Mato Grosso, que nessa época é carente de mão-de-obra e que paga um pouco melhor, diz. Só que a safra está atrasada e não podemos mandá-los embora.
Em situação normal, a safra de cana-de-açúcar em Engenheiro Beltrão termina na primeira quinzena de dezembro, mas desta vez atrasou cerca de dois meses e está prevista para acabar no dia 8 de fevereiro. Não podemos parar a empresa, frisa Loss. Além disso, estamos dentro da lei. De acordo com ele, os trabalhos da próxima safra devem começar em abril e, nesse meio tempo, os cortadores vão trabalhar na limpeza e na plantação do canavial.


