Grupo de rap anima carceragem


Percorrer as seis celas da carceragem do 5º DP revela surpresas. Quem imagina, por exemplo, um grupo de rap formado numa cela com nove detentos? ‘‘Pode crer/ a rapaziada tá sofrendo no 5º DP (...)/ o sistema não pega o traficante do pó/ pega aquele que não deve nada (...)/ pode crer/ tá sofrendo/ no 5º DP’’, são algumas das frases do rap improvisado que a turma do Stilo de Rua, um grupo da zona norte, compôs ontem de manhã.
‘‘Estávamos para gravar um CD e agora estamos aqui. Mas o problema foi o crack. A gente roubava para comprar droga’’, diz Reinaldo Fernandes da Cruz, 20 anos, mais conhecido como ‘‘Stilo’’. Ele está no ‘‘xadrez’’ há cinco meses, preso acusado de furto, e divide a cela com oito colegas (a capacidade total é para quatro). Três também são integrantes do grupo de rap e os outros, na hora da farra, também embalam na música.
Para Reinaldo da Cruz, a maior dificuldade que encontrou na vida atrás das grades é mesmo o pouco espaço para muita gente. A hora de dormir, por exemplo, é um sufoco: alguns vão para o chão, outros ‘‘trocam valete’’, ou seja, um nos pés do outro. ‘‘De dia, para passar o tempo, nossa diversão é cantar e limpar o xadrez. Não tem muito o que fazer’’, completa.
Outro ‘‘artista’’ do DP é Sérgio da Silva, 29 anos, oito meses preso acusado de homicídio. Com mulher e três filhos fora da prisão, ele produz cartões com papel-vegetal ou cartolina e também casinhas feitas de palitos. O material é cedido por irmãs de caridade. Depois, tudo é repassado para a própria família, que vende o material. ‘‘Consigo entre R$ 25,00 e R$ 30,00 por semana. Dá para ajudar o pessoal’’, conta.
Na rotina do distrito, porém, sobram mesmo é lamentações. Marco Antonio Dias, 23 anos, diz que há um ano foi preso com cinco gramas de droga. Acabou acusado por tráfico e não sabe quando vai voltar à liberdade. ‘‘É um sofrimento. Aqui é muito abafado, falta ar e a higiene é uma calamidade pública’’, compara.
O colega de cela Antônio Custódio, 51, também preso há um ano acusado de tráfico, reclama que já foi condenado mas até agora continua no DP. ‘‘Peguei 4,8 anos e não sei como será o futuro’’, diz ele, que é viúvo, tem quatro filhos e seis netos. ‘‘A gente passa o dia vendo tevê, ouvindo som, e vai levando.’’
Luiz Fabiano de Souza, 20 anos e 32 dias no xadrez acusado de roubo, não se conforma da própria situação. ‘‘Eu ia prestar vestibular em janeiro, para Educação Física, e agora estou aqui. Em quatro dias minha vida acabou.’’ Ele conta que no começo de agosto chegou de São Paulo para estudar e morar com a irmã. Viciado em pasta base e sem dinheiro, acabou se envolvendo num assalto. A esperança, agora, é ser transferido para uma entidade de recuperação. ‘‘Na sexta vou para o Fórum, conversar com juiz, e espero que dê para sair.’’
Já Márcio Alves de Assis, preso há três meses acusado de tráfico, lamenta os dias perdidos na cadeia pensando na vida e nas dezenas de fotografias que pregou em volta do beliche. Quase todas de mulher pelada. ‘‘Duro é ficar longe da família, sou muito apegado. Mas aqui a gente é tudo irmão, se trata bem e não tem muito problema. Só espero poder sair logo, arrumar emprego e trabalhar.’’ (L.H.)

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