Grupo de pistoleiros intimida sem-terra
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terça-feira, 22 de julho de 1997
Alexandre Sanches São Jerônimo da Serra 
Dorico da SilvaSob pressãoOs sem-terra ameaçam usar foices e facões caso os pistoleiros se aproximem do acampamento Os sem-terra acampados na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em São Jerônimo da Serra (95 quilômetros ao sul de Londrina), viveram uma madrugada de terror ontem. Desde o início da noite de anteontem, começaram a ser disparados tiros contra o acampamento. Disparos acertaram barracas e objetos mas ninguém saiu ferido. Segundo os lavradores, os tiros foram dados por pistoleiros contratados pelo proprietário da fazenda. Os sem-terra prometem reagir com foices e facões caso os jagunços cheguem próximo do acampamento.
Completou uma semana ontem a ocupação de uma área da fazenda, que tem 441 alqueires. No primeiro dia, os sem-terra denunciaram que pistoleiros atiraram para o alto, tentando intimidá-los. Eles argumentaram que os disparos têm acontecido diariamente, sem falar nas provocações verbais. Ontem eles ameaçaram nos matar e deram os tiros contra o acampamento, informou José Alves Fernandes, 44 anos.
Dorico da SilvaJosé Fernandes mostra o local atingido por uma das balasDurante o dia, famílias procuraram se afastar do acampamento para proteger as crianças e as mulheres. Marilda Prado Marins, 27 anos, saiu do acampamento, no início da tarde, com o marido e os três filhos. Ela estava na carroceria de uma camionete, junto com outras mulheres e crianças.
Tenho medo do que pode acontecer à noite. Prefiro sair e continuar trabalhando como bóia-fria do que perder meu filho por causa de um pedaço de terra, desabafou.
Quando a equipe da Folha chegou ao acampamento, um trator saiu em disparada da sede da fazenda levando um grupo de homens em direção ao interior da propriedade. Segundo os sem-terra, eles são jagunços.
Só ocupamos a fazenda porque o Incra emitiu laudo dando a área como improdutiva e de interesse para a reforma agrária. Nós queremos negociar. Mas se for preciso, morreremos por ela, afirmou Miguel Isidoro, 34 anos.
Por volta das 22 horas de anteontem, Santos Pereira Nunes, 43 anos, fugiu do tiroteio e chamou a Polícia Militar. Eles disseram que não poderiam se intrometer no conflito de sem-terra. Só às 4 horas da manhã soldados do 18º Batalhão de Cornélio Procópio chegaram na área, acabando com o tiroteio, comentou. De manhã os policiais recolheram algumas cápsulas e projéteis de balas disparadas contra os sem-terra.
Os lavradores garantem que uma mulher, que estava grávida, acabou abortando a criança por causa do tiroteio. Ela está internada no Hospital de São Jerônimo.
Na fazenda, a porteira permanecia trancada. O proprietário, José Roberto Rossato, já estaria procurando os meios legais para retirar os sem-terra, cumprindo a liminar de reintegração de posse obtida na sexta-feira.
A mulher de Rossato, Deusa Sanches Rossato, tinha garantido anteontem à Folha, por telefone, que não haveria pistoleiros na fazenda. Nós queremos fazer a reintegração pacificamente. Não somos de violência, disse. O tiroteio ocorreu menos de 12 horas após a entrevista.


