Paulo WolfgangDona da idéiaSilvana Gomes dos Santos: ‘Aqui aprendemos que dá para reciclar a vida da gente também, que dá para criar coisas bonitas a partir de coisas velhas’Receber a notícia de que se é portador do vírus da Aids não significa o fim. Foi justamente para trabalhar esta questão e mostrar que é possível viver com dignidade, amizade e respeito, que surgiu o Café Positivo, um grupo de mulheres soropositivo que se reúne quase todos os dias na sede da Associação Interdisciplinar de Aids (Alia), para conversar, fazer artesanatos e, especialmente, recuperar a auto-estima.
Resgatar a dignidade das portadoras do vírus da Aids é a principal meta do Café, criado pela ex-diarista Silvana Gomes dos Santos, também presidente da Organização Não Governamental Reagir, um grupo de apoio a soropositivos. Aliás, o Café surgiu a partir das discussões realizadas dentro do grupo Reagir.
A própria experiência de Silvana motivou o início das atividades do Café Positivo. ‘‘Quando me descobri soropositiva não tive ajuda. Meu marido estava muito doente e meu filho também era soropositivo - hoje ele é soronegativo. Sempre cuidei e nunca fui cuidada. Como sou mulher, comecei a trabalhar com elas e montei este projeto porque sei o quanto é importante ter um espaço como este. As mulheres sempre acham que vão morrer logo, que vão deixar seus filhos órfãos’’, comenta Silvana.
Ela ressalta que, quando as pessoas ficam sabendo que são portadoras do vírus, a primeira coisa que perdem é a auto-estima. Sem muitas forças para o trabalho, além do peso do preconceito, elas começam a depender de entidades para sobreviver. ‘‘Elas não têm dinheiro nem para a compra de alimentos. Perdem, com isso, também a dignidade’’.
No Café Positivo, toda atividade gira em torno do resgate da auto-estima e dignidade. Além de muita conversa, as oito mulheres que integram o grupo se dedicam, principalmente, à confecção de artesanatos. Com este trabalho, conseguem algum recurso para se manter. O trabalho do Café começou ano passado, com confecção de guirlandas para o Natal.
‘‘Tivemos casos de mulheres que não conseguiam ganhar nada há mais de um ano. Quando receberam o primeiro dinheiro da venda das guirlandas foi emocionante’’, relata Silvana.
Os materiais usados são doados ou arrecadados pelas próprias mulheres. São meias de seda coloridas usadas, arames, lãs. ‘‘Aqui aprendemos que dá para reciclar a vida da gente também, que dá para criar coisas bonitas a partir de coisas velhas. Criamos uma nova expectativa de vida. É diferente de que ficar sentada esperando a morte chegar,’’ fala Silvana.
Mas as meninas do grupo não ficam confinadas entre quatro paredes. Duas vezes por mês - na primeira e última quarta-feira - elas saem para passear. O roteiro é variado. Vão a cinema, ao Parque Arthur Thomas, saem pela cidade e já estão programando participar do Festival de Teatro e até mesmo passar uma
tarde no bingo. Os dias de passeio são chamados de Café Terapêutico.
O número de participantes do grupo ainda é pequeno, na avaliação de Silvana. ‘‘Conversamos com muitas quando recebem a sorologia, falamos que HIV não é sinônimo de morte. Mas é difícil elas entenderem que podem viver bem, que a morte não é imediata e que, enquanto se espera, podemos trabalhar, conquistar e crescer’’.
O trabalho e conquistas do Café Positivo foram mostrados no 4º Encontro de Ongs/Aids da Região Sul, que encerrado ontem, em Londrina.
Serviço: O Café funciona das 15 às 19h30, na sede da Alia (rua Sergipe, 1.054)

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