Josoé de CarvalhoONG a postosIntegrantes da associação Bandeira Branca: trabalho junto a assentamentos de sem-terra e população urbana de Querência do Norte A dura realidade dos acampamentos de sem-terra impressionou três estudantes de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que sentiram a necessidade de fazer alguma coisa por essas pessoas. Surgiu então a associação Bandeira Branca, uma organização não-governamental (ONG) que integra 20 estudantes de 11 cursos da UEL e pretende elevar a qualidade de vida em Querência do Norte (Noroeste do Estado). O município com 11 mil habitantes foi escolhido pela ONG por ter um dos maiores assentamentos de sem-terra do Paraná, com 1.400 famílias, e, ainda, porque as condições da população da cidade não diferem muito da situação dos assentados.
Na periferia da cidade, onde, segundo estimativas dos estudantes, mora metade da população, as famílias se abrigam em barracos como os sem-terra. Nas andanças pelo município e contatos com autoridades locais, os estudantes constataram que a população não conta com rede de esgoto e muitas das casas nem fossa têm - o esgoto é jogado a céu aberto.
Água potável é outra preciosidade em Querência do Norte. Muitas casas ainda usam água de poço. O único hospital da cidade está fechado há meses para reformas e todo o atendimento médico está sendo feito em um pequeno posto de saúde. Asfalto e coleta de lixo só há nas ruas centrais. Os terrenos baldios, que são muitos, segundo o grupo, estão tomados pelo mato. A iluminação pública é precária. A evasão escolar é comum e os professores não têm qualificação adequada. Os estudantes conheceram Querência do Norte no final de 1996, quando colaboraram com o primeiro censo da reforma agrária, a pedido do Incra.
A associação Bandeira Branca, que ainda está em fase de registro, já definiu as metas de ação em Querência do Norte: educação, saúde e urbanismo. O grupo tem estudantes de Medicina, Enfermagem, Psicologia, Arquitetura e Urbanismo, Serviço Social, Direito, Odontologia, Geografia, Agronomia e Veterinária, além de Ciências Sociais. ‘‘A população deve direcionar os trabalhos. Não podemos passar na frente deles, correndo o risco de termos um desempenho intelectual que não responde aos anseios da comunidade’’, diz o presidente da ONG, o professor de Sociologia João Batista. O interesse e envolvimento da população, de acordo com a estudante de Ciências Sociais, Sandra Gonzalez, 22 anos, é grande. A boa receptividade foi notada nas respostas aos 150 questionários aplicados no município para definir as atividades.
Sandra é a coordenadora dos trabalhos que envolvem educação. Os estudantes acreditam quem em novembro ou dezembro a educação em Querência do Norte apresentará as primeiras mudanças. O trabalho vai começar pela reestruturação do ensino de 1º e 2º graus. Os professores de Querência e de outros 12 municípios da região vão passar por cursos de especialização. ‘‘Eles estão ansiosos’’, diz Sandra. O principal problema da educação em Querência, segundo ela, é a evasão escolar. Município de economia baseada na agricultura, a maioria dos estudantes, de acordo com Sandra, são filhos de bóias-frias. ‘‘Na época de colheita os pais tiram os filhos da escola para ajudar na roça.’’ A ONG pretende ampliar o programa local de fornecimento de cestas básicas a essas famílias, para incentivar o estudo dos filhos.
Quem está à frente dos trabalhos voltados para o setor urbano é o estudante de Ciências Sociais Jerry Luiz da Silva, 27 anos. Tudo deve começar com a limpeza e embelezamento da cidade, através da pintura de meios-fios e árvores das praças. O trabalho será feito, no próximo final de semana, em conjunto com alunos do grêmio estudantil do Colégio Estadual Humberto de Campos, onde os integrantes da ONG se alojam quando estão na cidade. Segundo Jerry, o grêmio já se dispôs a colaborar com a ONG. A intenção da Bandeira Branca é formar uma base da associação em Querência, que seria formada com a prefeitura e o grêmio estudantil.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em Querência do Norte, segundo a estudante de Ciências Sociais, Alexandra Sguario, 24 anos, pediu a ajuda da ONG para melhorar a saúde nos assentamentos. Alexandra é a encarregada pelos assuntos na área de saúde na ONG. Seguindo a vontade do próprio movimento, a Bandeira Branca vai trabalhar com medicina preventiva formando agentes de saúde no local e fitoterapia. Os agentes aprenderam a trabalhar melhor com a medicina natural e a como diagnosticar doenças. Ainda na fitoterapia, segundo Alexandra, os assentados receberão ajuda científica para fazer pomadas e emplastros a partir das ervas.
Através dos registros do posto de saúde local, os estudantes informam que os principais problemas de saúde entre os assentados são as parasitoses, dificuldades respiratórias e anemia. Em agosto, será feita uma coleta de material de toda a população de Querência para análise laboratorial na UEL. Em agosto, a ONG pretende desenvolver campanhas de vacinação e de esclarecimento sobre assuntos como a hipertensão, que também atinge grande parte dos assentados.

mockup