Londrina – Nos recentes casos de corrupção que tomaram conta das manchetes do País, como a Operação Lava Jato e o escândalo do Mensalão, os holofotes pairam sobre a atuação do trinômio Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário. O que pouca gente sabe é que por trás da engrenagem que move as investigações existe uma equipe de inteligência especializada em detectar crimes econômicos. É o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). As atribuições dos membros do órgão ligado ao Ministério da Fazenda vão da prevenção de crimes de lavagem de dinheiro ao combate do financiamento do terrorismo.
Estes foram alguns dos assuntos abordados em Londrina pelo coordenador-geral de supervisão do Coaf, Joaquim da Cunha Neto, em palestra pela 9ª Semana Acadêmica de Ciências Contábeis da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), na quinta-feira. Em entrevista à FOLHA, Cunha Neto abordou a questão polêmica de o Brasil ainda não possuir uma legislação específica que tipifique o crime de financiamento do terrorismo. Segundo ele, a omissão pode resultar em sanções de organismos internacionais. "O Brasil é membro do Gafi, grupo de ação internacional que age contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo. No primeiro item, nossa avaliação foi boa, mas na questão do terrorismo, nós temos problema de origem, de base, que precisa ser resolvido", cobrou. Para o coordenador, não é desculpa dizer que não há problemas com terrorismo no Brasil. "Felizmente, não temos, mas não é uma desculpa em âmbito internacional sob pena de sanções internacionais, inclusive no sistema financeiro. Corremos este risco", alertou.
Cunha Neto comentou também sobre a sofisticação dos crimes de lavagem de dinheiro. Se nos anos 1960 Frank Abagnale Junior desafiava a inteligência americana com fraudes focadas principalmente na falsificação de cheques, hoje certamente usaria o meio eletrônico. De acordo com Cunha Neto, não é preciso retroceder tanto como na história de Abagnale Jr., contada pelo filme "Prenda-me Se For Capaz" (2002).
"É um processo evolutivo, tanto do ponto de vista do seu combate como dos instrumentos que se utiliza para lavar dinheiro. Obviamente, o mundo se sofistica. Hoje, a tecnologia digital permite você transferir recursos para qualquer lugar do mundo quase que instantaneamente", comparou. "Isso dificulta um pouco o combate, mas cada vez mais temos instrumentos que vão permitir combater a lavagem de dinheiro. Usamos a máxima: ‘Siga o dinheiro’. Com esta técnica temos combatido bastante os crimes de uma forma geral."
Segundo ele, o divisor de águas no Brasil foi a lei 9.613 de 1998, que passou a atacar a base econômica das organizações criminosas. "Antes daquele ano não havia a tipificação da lavagem de dinheiro. Foi uma grande sacada. Antes se preocupava apenas em prender o criminoso, em apreender a droga, e se esquecia do combustível que alimenta tudo isso, que é o dinheiro. A partir do momento que se tipifica a lavagem, cria-se um instrumento poderoso para combater o crime."
Para o coordenador do Coaf, o sucesso das operações que investigam crimes de corrupção é reflexo da lei 9.613. "Não tenho dúvida que as operações são reflexo do maior controle. Agora, temos as pessoas obrigadas a contribuir no combate a essas práticas criminosas. São os bancos, o mercado de valores mobiliários, as seguradoras, e recentemente os contadores. Você cria no cidadão o trabalho extremamente relevante que é o de comunicar", contou.
O Coaf recebe cerca de 5 mil comunicações por mês. "Com base nestes dados, iniciamos o cruzamento de dados que chegam até as irregularidades", detalhou. "Ainda somos um órgão novo, relativamente pequeno, mas, do ponto de vista do que se pretende, temos obtido bons resultados."

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