Grupo ajuda a aliviar as tensões dos adolescentes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de novembro de 1996
Célia Baroni 
Vida de adolescente não é fácil. Administrar a desconfiança e a competitividade torna difícil a importante tarefa de fazer amigos, se sentir amado e fazer parte de um grupo. Mas pelo menos 35 jovens de 9 a 19 anos encontraram uma saída para se comunicar, trocar experiências e esclarecer suas dúvidas. Desde setembro, eles se reúnem três vezes por semana, durante meia hora, no Sesc Londrina/Aeroporto. Falam sobre seus sentimentos, problemas e buscam informações sobre o seu dia-a-dia.
O Grupo de Adolescentes do Sesc (GAS) é uma iniciativa da técnica social da entidade, Cloara Pinheiro Lima, e traz excelentes resultados. Para os pais, uma boa notícia: se o GAS for uma amostra da juventude de Londrina, ela está bem mais madura e aberta do que se imagina. Na agenda do grupo já estão marcadas uma exposição de trabalhos e uma excursão.
Para viabilizar os recursos do passeio, o GAS está montando uma cesta e organizando uma rifa. Mas não é só diversão que eles querem. A meta do grupo é conseguir, a médio prazo, desenvolver atividades sociais junto à comunidade carente.
Há unanimidade entre os membros do GAS quanto ao crescimento individual com os encontros. Até a relação com os pais melhorou e os desentendimentos se suavizaram. Ouvindo as dificuldades dos colegas, eles dizem ter começado a entender que não eram os únicos a passarem pela repressão dos pais. E hoje acreditam estar compreendendo melhor a preocupação da família.
Os pais pensam que a gente só pensa naquilo (drogas e sexo).
Os pais querem nos proteger, mas não se preocupam em ouvir o que pensamos nem argumentam com a gente. Simplesmente impõem.
Se eu dependesse dos conselhos dos meus pais, eu já teria me envolvido em situações difíceis.
Os pais conseguem transformar um simples namoro na coisa mais pavorosa do mundo.
É o acesso à informação que faz a gente avaliar melhor as situações e tirar de letra.
Estas e outras frases, colhidas durante uma entrevista à Folha, evidenciam uma necessidade dos jovens: eles querem um apoio fora de casa. Tudo que acontece em casa ou preocupa a nossa cabeça, a gente desabafa aqui. Sabe que está entre amigos, que pode confiar e não vai ser julgado, apenas conversar e trocar experiências, diz uma das adolescentes. Eles dizem que, depois de começarem a participar do GAS, ficaram mais seguros e confiantes, inclusive em outros ambientes, como a escola.
A principal reclamação dos jovens do GAS é que os pais param no tempo e se apavoram. Dizem que os adultos ainda não entenderam a aplicar com os próprios filhos a teoria aconselhada para os filhos dos outros : Dialogar: ouvir e falar. Um dos exemplos citados pelos adolescentes é a polêmica e as brigas familiares provocadas pelo recente tipo de relacionamento criado entre eles. Antes do namoro eles costumam ficar. Mas os pais acham que isto é galinhagem. Pensam que ficar pode significar um relacionamento íntimo (leia-se sexo). Estão errados.
Segundo o GAS, as meninas estão bem mais informadas e, quando ficam com alguém, dificilmente rola sexo. Elas não confiam na maturidade dos garotos e dizem que o risco de se envolver fisicamente com alguém é muito grande. Além de considerarem as doenças sexualmente transmissíveis, e de uma gravidez indesejada, as adolescentes afirmam que os meninos não têm cabeça. Quem cede, acaba na boca de todo mundo. Não vale a pena.
O Sesc Londrina/Aeroporto pretende, a médio prazo, aumentar o atendimento aos adolescentes e já está aceitando novas inscrições de quem quiser participar do GAS. O diretor do Sesc, João Frederico dos Santos Gorla, comenta: A idéia é deixar que os próprios jovens definam sua programação. O importante é integrá-los em atividades saudáveis e produtivas.


