Ele não é conhecido do grande público mas é famoso no seu meio. Quem mexe com gado, participa ou apenas assiste leilões de animais pelo menos já deve ter ouvido falar sobre o ‘‘Gringo’’. E quem já o viu em ação, sabe porque ele é hoje considerado um dos melhores pisteiros do Brasil. Quando o Gringo está no recinto de leilões, ninguém fica parado, indiferente ao lote apresentado. Ele gesticula, chama atenção para a qualidade do animal, anima, comemora um lance mais ousado, aplaude, joga o boné, acompanha atento cada disputa, conversa baixinho com o provável comprador, convence. E vende. Vende muito. É o que vem fazendo na maioria dos leilões que está sendo realizada durante a Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina.
Gringo é o apelido de Luis Andres Aleman Lambach, 58 anos, um uruguaio naturalizado brasileiro, que chegou ao Brasil há exatos 22 anos, para vender um único rebanho de animais. Aqui acabou ficando, terminou de criar os dois filhos - um deles trabalha com ele no mesma empresa leiloeira -, viu nascer o primeiro neto e ganhou fama pelo Brasil a fora. Só não perdeu o forte sotaque castelhano. De todos os Estados brasileiros, o único ainda que ainda não fez um leilão foi a Bahia. ‘‘Estou apenas esperando um convite’’, diz.
Gringo nasceu em Montevidéu e começou a trabalhar como pisteiro aos 10 anos. ‘‘Meu tio era leiloeiro de gado Holandês e, desde pequenino, ficava horas sentado, observando os leilões’’, conta. Aos 19 anos, Gringo - então ainda conhecido como Luisito Aleman - já era leiloeiro. Dos 19 aos 37, se tornou um dos principais leiloeiros da raça Holandesa no seu país. Casado com uma brasileira, tinha também muitos clientes brasileiros. ‘‘De cada 10 brasileiros que iam ao Uruguai comprar gado, eu atendia sete’’, conta.
Tudo ia bem até começarem os problemas políticos e sociais no país. ‘‘Foi uma época difícil para todos, e acabou com o comércio de gado’’, diz. A idéia de vir para trabalhar no Brasil começou a ser a pensada mais seriamente. ‘‘Um dia, um cliente meu, industrial em São Paulo, ficou sabendo que eu estava interessado em vir. Ele estava em Buenos Aires, vôou até Montevidéu e, 48 horas depois, eu estava em São Paulo’’, explica.
O industrial era José Lins Gugglielme e queria que Gringo vendesse 800 novilhas holandesas suas. ‘‘Ele fez um contrato - em dólar - comigo de apenas 90 dias, alugou um apartamento mobiliado e me deu um carro zero quilômetro - um luxo que pouca gente tinha no Uruguai, naquele tempo’’, afirma. Em 33 dias, Gringo vendeu o rebanho e estava de volta a seu país. ‘‘Estava lá há apenas cinco dias, quando ele me ligou. Ia me mandar uma passagem - coisa de brasileiro rico - para que eu fosse até a Argentina ajudá-lo a escolher algumas novilhas. Fui, compramos 47 cabeças e voltamos para Montevidéu, onde compramos mais 500. Aí ele me convenceu a vir definitivamente para o Brasil’’, conta.
Em 1981, cerca de quatro anos depois de instalado e trabalhando no Brasil, Gringo foi encarregado pelo Banco de Crédito Nacional (BCN) da venda um rebanho de 7.500 novilhas holandesas. ‘‘Eu não conhecia o Paraná. Só sabia que aqui estavam as maiores cooperativas leiteiras. Então resolvi parte do rebanho por aqui’’, conta. Separou 500 cabeças e fez um roteiro das grandes feiras agropecuárias do Estado - Umuarama, Paranavaí, Londrina e Maringá. Na primeira a que foi, vendeu 400 cabeças para uma cooperativa. ‘‘Ali eu decidi que meu lugar era no Paranᒒ, afirma. Escolheu morar em Maringá, onde está até hoje.
A transição dos leilões de gado leiteiro para os de animais em geral foi uma espécie de ‘‘coincidência’’. Ainda em 81, durante a exposição de Maringá, Gringo foi dar uma ‘‘espiadinha’’ num leilão de cavalos quarto-de-milha. ‘‘Um conhecido meu de São Paulo, que tinha um animal à venda, me pediu para ajudá-lo porque a empresa leiloeira não tinha conseguido vender os lotes anteriores e ele precisava vender o animal por um preço x’’, explica.
Gringo não só vendeu o cavalo do conhecido pelo dobro do valor pedido como também - a convite da empresa leiloeira e do próprio público - acabou vendendo o resto dos lotes. ‘‘No final do leilão, o dono da empresa sentou comigo no meio-fio e fizemos um contrato escrito em um guardanapo’’, lembra. Três meses depois, ele trouxe a empresa, que estava sediada em Cruzeiro D’Oeste, para Maringá e, em cinco anos, ajudou a torná-la uma das três maiores do Brasil.
De lá para cá, o pisteiro passou por várias empresas leiloeiras, inclusive a sua, G. Leilões, até que a Programa Leilões, de Londrina, incorporou sua empresa. ‘‘Eu fiquei como free-lance para a Programa, cerca de quatro anos, de 95 até janeiro deste ano, quando assumiu a gerência da empresa’’, diz. Para ele, que não queria nunca mais saber de horários e responsabilidade com funcionários, sua aceitação do cargo foi uma surpresa. ‘‘Acho que o nascimento do meu neto, hoje com cinco meses, me deu uma força nova, um ânimo novo. Antes dele nascer, eu terminava o leilão e ia pra gandaia. Agora venho para o hotel’’, observa.
Segredos de uma boa venda, Gringo diz que não há. Basta saber quem são os compradores, observar quais animais eles visitam antes do leilão, conversar com eles, ver o que eles querem e oferecer só o melhor. ‘‘A questão é não forçar e sempre respeitar os outros, não importa se vai comprar só um ou uma boiada’’, garante. E o seu segredo particular para estar sempre animado é mais simples ainda: ‘‘É gostar do que faço. O leilão é minha vida’’, garante.


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