Grevistas debilitados vão para hospital
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quarta-feira, 22 de julho de 1998
Paulo Pegoraro 
A greve de fome mantida desde o final de semana por 16 avicultores (quatro mulheres e 12 homens) na praça da catedral de Cascavel está atingindo a fase mais crítica, com a saúde dos grevistas já comprometida e, caso insistam no protesto, correndo risco de vida.
O alerta foi feito ontem pelo médico e secretário municipal de Saúde, Lísias Tomé, que removeu três pessoas em situação mais delicada para o Hospital Regional, embora elas demonstrassem contrariedade, pois queriam permanecer nos barracos com os companheiros.
Os avicultores protestam contra a desativação do frigorífico do grupo catarinense Chapecó, ao qual estavam integrados para o fornecimento de frangos, tendo contraído empréstimos bancários para implantar os aviários e dotá-los de tecnologia exigida pela empresa.
Eles se dizem enganados pela Chapecó porque o frigorífico foi desativado logo depois - há 19 meses -, em decorrência de crise financeira do grupo, que tem unidades em Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Em Cascavel, eram abatidas mensalmente 100 mil cabeças, produzidas em 486 aviários.
Foram levados ao hospital Lúcia Coco, 34 anos, Valmor Vila, 48, e Irio Sariolli, 48 anos, e três filhos, todos de Capitão Leônidas Marques (78 km ao sul de Cascavel). Eles saíram em macas e ambulância, sob manifestações de desespero de familiares e de pessoas presentes, todos demonstrando revolta com a situação a que tiveram que chegar os avicultores.
O choro era geral, entre os familiares. Adriana Cericatto, 17 anos, também de Capitão Leônidas Marques, chorava abraçada ao pai, Jaime Cericatto, 48 anos, implorando-lhe para desistir, mas ele se limitou a consolá-la, sem responder.
Valmor Vila, quatro filhos, chegou a dizer que prefere morrer que voltar para casa e passar vergonha, com cobradores, ou ver o banco tomar a terra. Ele obtinha renda de mais de R$ 3,5 mil a cada 45 dias (ciclo de produção do frango) e acumula dívida de mais de R$ 50 mil, em financiamentos e outros encargos. Para Lúcia Coco, dois filhos, desespero aqui ou lá em casa dá na mesma, disse.
Os filhos de Lúcia foram enviados para a casa de parentes em Foz do Iguaçu, e o marido, Eugênio, 46 anos, está em outro barraco montado pelos avicultores em frente ao frigorífico, há quatro meses. Irio Sariolli, três filhos, disse que não adianta voltar para casa, cruzar os braços e ver que o futuro acabou.
O médico Lísias Tomé alertou a todos para o risco a que estão se submetendo, e disse que, embora se trate de adultos, responsáveis por seus atos, se tentar transferir outros para hospital, e eles resistirem, poderá recorrer ao Ministério Público, porque temos obrigação de evitar o pior.
Tomé explicou o processo no corpo de quem suprime a alimentação. Inicialmente, é consumido tudo o que há de carboidratos no intestino, depois a gordura, e começa a produção de cetona, substância que é lançada no sangue, ocorrendo dores e cãibras, por falta de sódio, potássio e cálcio.
Na fase inicial, há tontura e dor de cabeça, e a seguir confusão mental e arritmia, que pode levar a complicação cardíaca fatal. Com soro, é possível manter a pessoa por até duas semanas, mas sem ele, em cinco dias (tempo completado ontem pela greve de fome) o risco já se estabelece em definitivo.
O médico observou que homens e mulheres já têm o rosto murcho, não conseguem ficar em pé, alguns deles já tinham problemas de saúde, e sua situação só não é pior porque trata-se de gente acostumada à situações rudes como ocorre no campo.
Tomé comentou que é degradante ver a que ponto teve que chegar um povo trabalhador. Ao lado, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil local, Antonio Linares, disse que os governos estaduais e federais poderiam intervir, desapropriando a indústria, porque seus bancos são credores, o patrimônio está apodrecendo e a questão social é grave.


