Uma Bíblia no centro do barraco de lona preta, um crucifixo no alto, preso ao bambu que mantém a lona estendida, muitas orações, a solidariedade da população e o desespero de causa alimentam a manutenção da greve de fome entre os 12 homens e quatro mulheres, representantes dos avicultores, acampados desde o final da semana na praça da catedral de Cascavel.
Eles querem chamar atenção nacional para o drama, o de não poder continuar produzindo, porque o frigorífico do grupo Chapecó, a quem forneciam frangos no sistema de integração, está inativo há quase 19 meses, depois de tê-los estimulado a elevados investimentos em aviários.
Na noite de ontem, dirigentes da Cooperativa de Produção dos Trabalhadores Rurais do Oeste do Paraná (Cooperoeste), que representa os avicultores, discutiam a possibilidade de transferir o acampamento e a greve de fome para a frente do Palácio Iguaçu, em Curitiba. ‘‘Talvez assim, políticos e autoridades decidam atuar para que o impasse seja superado’’, disse o presidente da Cooperoeste, José Lino Bergamin, que deveria conversar com o secretário estadual de Indústria e Comércio, Eduardo Sciarra, que estava na cidade. Os avicultores querem que o governo assuma negociações para a reativação do frigorífico.
O grupo Chapecó deve cerca de R$ 300 milhões a bancos, entre eles o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social, pelo qual passa a discussão sobre venda de suas unidades, única alternativa para a reativação, segundo José Lino Bergamin. Deitada no barraco, ontem, sem forças para andar, dona Lúcia Coco, 34 anos, mãe de dois filhos e mulher de Eugênio, 46 anos, disse que ‘‘aquela gente só vai se mexer quando alguns de nós morrer’’ e assegura que nenhum desistirá do protesto. Lúcia, que sentia tontura e vomitara, relatou que a família obtinha renda de mais de R$ 2 mil em cada ciclo (45 dias) de produção de frangos.
Alguns avicultores, que não participam do protesto, tentaram convencer inicialmente Lucia Coco e as outras três mulheres, e depois os homens, a desistir da greve de fome, dizendo que seria melhor deixar os bancos ‘‘tomarem tudo’’ que se submeter ao risco de vida. ‘‘Se a gente for para casa, aí é que ninguém se interessará por buscar uma solução’’, reagiu Lucia Coco, que, junto com mais três pessoas, poderia ser conduzida a hospital ontem à noite, pela debilidade física decorrente da greve de fome.Edson MazzettoLúcia Coco (deitada), apresentava ontem o pior estado de saúde entre os que fazem greve de fomePaulo Pegoraro

mockup