Gravidez precoce gera 21% das crianças
Adolescentes conhecem métodos de prevenção mas não os utilizam, já que engravidar é status principalmente nas classes baixas

VergonhaJuarez Medeiros, do HC: ‘‘Usar um método preventivo é assumir que se está mantendo relações sexuais’’Programa pré-natal
do HC constata que
relacionamentos são
pouco duradouros
Anna Camanducaia
Vinte e um por cento das crianças nascidas por ano no Brasil são filhos de mães adolescentes, segundo dados do IBGE. O motivo da gravidez precoce não é a falta de informação. Segundo o psicólogo Juarez Marques de Medeiros, do Hospital de Clínicas (HC) de Curitiba, as jovens de 12 a 19 anos sabem que correm o risco de engravidar e conhecem os métodos de prevenção. O problema é que não os utilizam.‘‘Usar um método preventivo é assumir que se está mantendo relações sexuais’’, diz. ‘‘A vergonha de assumir a atividade sexual não é regra. Às vezes, a menina deixa de se proteger porque não sabe que sua vida reprodutiva começou.’’ Segundo Medeiros, cada vez mais, as meninas estão menstruando mais cedo.
Para algumas adolescentes, engravidar não é problema, já que significa status e maturidade dentro das classes mais pobres. ‘‘O plano de vida da maioria das adolescentes das classes baixas é ter filhos e marido’’, diz Medeiros.
O HC desenvolve um trabalho de pré-natal voltado para adolescentes grávidas. Além do acompanhamento normal durante todo o período de gestação, elas participam de um grupo, todas as segundas-feiras, das 7h30 às 8h30, para discutir as mudanças no corpo e nas condições de vida. Cada assunto é abordado por um profissional especializado na área. São obstetras, psicólogos, enfermeiras, nutricionistas, dentistas, assistentes sociais e pediatras. O grupo tem de 15 a 20 adolescentes. ‘‘O objetivo do grupo é proporcionar uma gravidez mais saudável.’’
Os parceiros também são convidados a participar. Segundo Medeiros, 80% das adolescentes que recebem acompanhamento no HC estão com seus companheiros. Este quadro muda em alguns anos. Grande parte dos relacionamentos não são duradouros. ‘‘A maioria delas engravidou do primeiro parceiro. Entramos em contato com jovens que participaram do grupo, depois de cinco anos, e constatamos que algumas estavam com seu segundo ou terceiro marido’’, diz.
As famílias geralmente aceitam a gravidez e dão apoio às filhas. ‘‘As adolescentes também reagem bem ao saber que estão esperando um filho, mas sempre passam por conflitos’’, diz Medeiros. ‘‘A gravidez na juventude prejudica a vida profissional e faz com que os estudos sejam abandonados.’’
A prevenção deste quadro, que é mundial, seria uma relação mais aberta entre pais e filhos. ‘‘Seria importante que os pais conversassem com os filhos sobre os métodos anticoncepcionais’’, diz Medeiros.

mockup