Engravidar na adolescência não representa apenas um problema psicológico para a futura mãe. É também um fator que coloca em risco a vida das meninas, especialmente, quando são muito jovens. Na última quarta-feira, o município de Tamarana (62 km ao sul de Londrina) registrou a morte da menor L.F.S., de 13 anos, vítima de eclâmpsia, durante o parto que estava sendo realizado no hospital São Francisco, unidade para atendimento de nível secundário.
O caso de L.F.S. não é isolado. Em Londrina, foram registradas duas mortes de adolescentes durante o parto este ano. ‘‘A gravidez na adolescência é sempre considerada de alto risco porque se instala num organismo que não está preparado tanto sob o ponto de vista biológico quanto psicológico e social’’, comenta o ginecologista e obstetra José Luiz de Oliveira Camargo, responsável pelo Serviço de Ginecologia Infanto-Puberal do Hospital Universitário e membro da comissão Nacional de Ginecologia Infanto-Puberal da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.
No período da adolescência, que vai dos 12 aos 19 anos, quanto mais baixa a idade, maior é o risco a que as meninas grávidas estão expostas. O médico explica que este período é o de maturação do eixo hormonal, do qual fazem parte o hipotálamo (que interfere no aspecto emocional), a hipófise (que produz os hormônios estimuladores das gônadas), ovários e útero. ‘‘Por isso, o organismo das meninas está sujeito a maiores riscos’’, salienta o médico José Luiz.
Ele comenta que muitas das meninas que engravidam ainda nem conhecem seu próprio corpo, não sabem a função dos órgãos reprodutivos e nem sequer sabem por que engravidaram. Os riscos ocorrem, em primeiro lugar, devido à idade prematura. Segundo o médico, as intercorrências a que estão expostas são, principalmente, infecção, anemia e alteração de pressão, da qual a manifestação mais grave é a eclâmpsia (convulsão e coma).
O segundo fator de risco, de acordo com o médico, está relacionado à falta de pré-natal adequado, principalmente para os moradores da periferia e da zona rural. ‘‘O pré-natal implica em diagnosticar as patologias que podem interferir na saúde da mulher, da criança e do tipo de parto.’’ Neste período se detecta, com mais frequência, as anomalias genéticas fetais, aspectos nutricionais da mãe e feto, infecções perinatais e doença denominada hipertensiva da gravidez.
José Luiz observa que em um parto de alto risco a paciente deve sempre ser encaminhada para um hospital que tenha suporte de atendimento. Segundo ele, o segredo para um bom atendimento à saúde do adolescente é trabalhar com equipe multidisciplinar, da qual façam parte médico, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista, enfermeiros e orientador educacional.
Outro aspecto lembrado pelo médico é que, em 91, foi realizada uma reunião nacional sobre a saúde reprodutiva do adolescente. Na ocasião, foi elaborado um programa englobando várias áreas, como crescimento, desenvolvimento e sexualidade. ‘‘No entanto, o próprio governo não disponibiliza infra-estrutura para o programa ser implementado. Se isso ocorresse e se também o Estatuto da Criança e do Adolescente fosse cumprido, os riscos seriam melhor combatidos, tanto relacionados à saúde das meninas, quanto ao número de gravidez na adolescência.’’
A médica pediátrica Josemari de Arruda Campos, presidente do Comitê Regional de Estudos e Prevenção da Morte Materna, relata que o número de mortes na adolescência oscila bastante. Mas um outro fator tem preocupado os profissionais do comitê. Segundo Josemari, está sendo observado um número expressivo de natimortos e mortes infantis, cujas vítimas são filhos de adolescentes. ‘‘O organismo da menina não está preparado para a gravidez e também porque lhes falta preparo para cuidar de seus filhos.’’

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