Os resultados do trabalho no combate à subnutrição infantil, que vem diminuindo a taxa de mortalidade entre crianças de zero a seis anos, já é reconhecido internacionalmente e rendeu até a indicação para o prêmio Nobel da Paz deste ano. A promoção humana de mulheres voluntárias da Pastoral da Criança da Paróquia Nossa Senhora da Aparecida, no Jardim Igapó, zona sul de Londrina, por sua vez, também tem chamado a atenção.

No encerramento do trabalho de apoio às gestantes, no início deste mês, a coordenadora da Pastoral da Criança, Maria Ângela Barros, 56 anos, comemorava junto com outras líderes as conquistas de Ivete de Araújo, 32 anos, grávida do quarto filho.

Assim como outras voluntárias, ela enfrentava dificuldades em sua vida pessoal, sem enxergar perspectivas de mudança, e foi no trabalho de líder da pastoral que começou a vislumbrar uma saída. Ângela, há oito anos na Pastoral da Criança da Paróquia Nossa Senhora da Aparecida, conta que há cinco anos Ivete começou a ser atendida pelas outras líderes.

''Era um trabalho difícil porque a Ivete não fazia nada, bebia, não conseguia cuidar bem dos filhos'', lembra. Sem saber ler, Ivete tinha poucos recursos para lidar com sua situação. ''Era uma mulher triste, desanimada, sem perspectivas'', afirma Ângela.

A trajetória de Ivete justificava o seu desamparo. Aos 16 anos fugiu de Foz do Iguaçu onde morava com o pai, três irmãos e a madrasta. A mãe morrera quando ela tinha dois anos. Um desentendimento, já por causa de bebida, acabou em agressão física por parte do pai.

Com a roupa do corpo, sem documentos, a garota pegou um ônibus e seguiu para Londrina. Sem conhecer ninguém, perambulou pelas ruas ela já nem lembra por quanto tempo até começar a trabalhar na casa de uma família. Ivete fala pouco desta época, tempos difíceis que deixaram marcas profundas.

Aos 17 anos foi morar com um rapaz que é seu companheiro ainda hoje. Sua vida mudou, mas as feridas não cicatrizavam.

Ivete teve filhos, mas bebia e tinha dificuldades em cuidar de si e de sua família. Passou a ser atendida pela Pastoral da Criança quando estava grávida do terceiro filho, mas ainda não era o suficiente para operar uma mudança mais significativa.

Depois de três anos, a coordenadora Ângela Barros decidiu convidá-la para ser uma das voluntárias. A idéia era ajudar Ivete a resgatar sua auto-estima, envolvendo-a em um trabalho com a comunidade. A primeira reação de Ivete foi não aceitar. ''Ela não acreditava que seria capaz'', conta Angela Barros. Hoje, a mulher que mal conseguia cuidar de seus filhos e de sua casa é o braço direito na Pastoral da Criança.

Ivete pesa as crianças, visita as casas, faz remédios caseiros, cuida da alimentação. Entre suas vitórias, Ângela comemora o fato de ela própria estar fazendo o enxoval de seu quarto filho. Maria Izabel ou João Vítor deve nascer em 20 de janeiro. ''Futuramente Ivete pode gerar renda com a costura que está aprendendo'', aposta a coordenadora.

Aos poucos, Ivete vai construindo um caminho mais positivo, mas nem tudo são flores e ela sabe. ''Às vezes Ivete tem recaídas, bebe e diz que não pode continuar a trabalhar na Pastoral. Mas nós insistimos. Hoje ela tem uma responsabilidade, todos no bairro a conhecem e ela não pode abandonar o trabalho assim'', afirma Ângela.

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