Governador admite a culpa da polícia
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quinta-feira, 12 de junho de 1997
Cristine Pieske, 
de Curitiba
Albari RosaMedoJúlio, com a carta que motivou a visita: Será que nunca vou poder sair sem medo de ser morto por um policial idiota?O governador Jaime Lerner admitiu ontem a responsabilidade do Estado na morte do estudante Rafael Zanella, e pediu desculpas pessoalmente em nome do governo à família do estudante. Ontem pela manhã, Lerner foi à casa da família, no bairro Santa Felicidade, para conversar com os pais e irmãos do estudante assassinado na noite de 28 de maio. Durante o encontro, que durou cerca de 30 minutos, o governador prometeu moralizar a polícia, e considerou Rafael uma bandeira da mudança que acontecerá no Paraná.
O motivo da visita foi uma carta enviada pelo irmão caçula de Zanella, Júlio César, de 12 anos. Na carta, escrita poucos dias depois do assassinato, Júlio implora ao governador que melhore a segurança do Estado para que os jovens não vivam com medo da polícia. Eu não sei como é que eu devo reagir na frente de um policial: ou corro e levo um tiro nas costas, ou fico como meu irmão e levo um tiro à queima-roupa na cabeça. Será que nunca vou poder sair para jogar futebol sem medo de ser morto por um policial idiota?, diz em um dos trechos da carta. Júlio afirma que, caso Rafael não tivesse sido morto, poderia continuar brincando com ele todos os dias. Por que os policiais saíram naquela noite com a intenção de matar alguém?, pergunta.
Lerner foi até a casa da família acompanhado dos secretários de Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, e da Casa Civil, Rafael Greca, e do delegado geral da Polícia Civil, Artur Braga. A visita foi marcada na noite anterior, por telefone, pelo secretário da Casa Civil. Durante o telefonema, Greca disse que o governador resolveu se empenhar pessoalmente no caso depois de ler a carta enviada por Júlio, que havia sido entregue a deputados na Assembléia Legislativa. Os assessores pediram que a família não avisasse a imprensa sobre o encontro.
Durante a meia hora em que conversaram com o governador, a mãe de Rafael, Elizabetha Zanella, conta que teve certeza de que a morte de seu filho não foi em vão. A morte do Rafa com certeza já salvou muita gente, afirmava, referindo-se à mudança que Lerner prometeu fazer na polícia. Outro compromisso assumido pelo governador foi incluir cursos sobre direitos humanos na formação dos policiais.
Em frente à casa da família, que desde o dia do assassinato ostenta uma faixa preta na sacada, os pais de Rafael dizem que duvidam do depoimento de Almiro Schmidt, que seria o autor do disparo que matou Rafael.
O delegado corregedor Gílson Algauer, que investiga a morte de Rafael Zanella, promete entregar seu relatório segunda-feira. Ele não quer adiantar a conclusão, mas admite que deve pedir a prisão preventiva do motorista Almiro Schmidt, autor do disparo fatal. O acusado voltou a depor anteontem e assumiu ter dado o tiro de forma acidental. A arma teria escorregado da mão dele e disparado no impacto com o chão. A tese de Schmidt é desmentida pelo laudo balístico, que comprovou que a bala acertou o estudante de cima para baixo, e não o contrário. (Colaborou Dary Júnior)


