Nascido e criado em Londrina, Newton Martins dos Santos, 43, conhece a cidade como poucos. Há pouco mais de dez anos, estava no topo de um edifício de 18 andares, olhando a Avenida Higienópolis: ''Do nada aquela avenida sumiu, embaçou e desde então perdi minha vista'', conta.
De acordo com Martins, que trabalhava como construtor, esse momento o atormenta desde então. Até aquele instante a visão do londrinense se esfarelava aos poucos, mas não o impedia de trabalhar nem realizar outras atividades.
Desde pequeno Martins sofre de retinose pigmentar, uma doença genética e incurável. ''Estudei só até a 3 série porque na época já não conseguia ver muito bem o quadro.'' Hoje o ex-construtor vê apenas vultos de vez em quando. ''Do tempo em que enxergava lembro de praticamente tudo. No ano passado encontrei um amigo do tempo de escola. Ele me chamou e cumprimentou. Já estamos na faixa dos 40 anos, mas só me lembro do rosto de criança dele.''
Se pudesse ver algo hoje, Martins desejava vislumbrar a face do filho Wellington, 16 anos. ''Vi quando era pequeno. Gostaria de saber como ele é.'' Em Londrina, a imagem que sempre surge no íntimo é a vista da Catedral. ''Na minha infância morava próximo da rodoviária, com meus avós, e sempre quando vinha subindo para o Centro via de longe a Catedral. Aquilo me marcou.''
Martins, que mora com a família no Conjunto Maria Cecília (Zona Norte), acompanhou a reportagem num rápido passeio pela cidade e mesmo dentro do carro sabia onde estava. ''Tenho marcado tudo dentro da cabeça'', disse o construtor. Para ele a maior dificuldade no dia a dia é atravessar avenidas sem semáforos. ''Vou pelo ouvido, mas é perigoso.''
Depois que passou a frequentar o Instituto de Instrução para Cegos, Martins voltou a estudar e está no Ensino Médio. ''Acho que vou fazer uma faculdade, ainda não sei qual. Mas pelo que passei na minha vida, já sou um vencedor. Fui criado na periferia pelos meus avós, perdi a visão, mas ainda assim hoje tenho esposa, filho. Estou no lucro.'' (D.B.)

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