Golpe envolve cartórios e despachantes
Vânia Moreira
De Umuarama
Tabelionatos e despachantes de trânsito de Curitiba são acusados de participar do golpe aplicado em donos de carros pelo empresário Joni Rodrigues. Os cartórios reconheceram em recibos de transferência dos carros a assinatura de várias pessoas que não tinham firma reconhecida em Curitiba. O reconhecimento ilegal de assinaturas permitiu que mais de 50 carros comprados em Altônia (88 quilômetros a sudoeste de Umuarama) fossem transferidos às vésperas de o golpe se tornar público. Somente o Cartório Macedo, na Avenida 15 de Novembro, teria reconhecido mais de 20 assinaturas a pedido do Despachante Desorno. Os advogados das vítimas estão apurando o envolvimento de outros cartórios e despachantes.
Uma das vítimas de Altônia, Roberto Galbiatti, conseguiu junto ao Cartório Macedo uma certidão de que não possui firma reconhecida naquele tabelionato. Mesmo assim, teve sua asssinatura reconhecida no recibo de transferência de um Ômega que vendeu para Rodrigues. Estima-se que Joni Rodrigues tenha comprado quase 300 carros com cheques sem fundos na região de Umuarama. Somente em Altônia, onde mantinha amizade com o policial rodoviário Elieser Wischral, ele comprou mais de 130.
Segundo as vítimas, a maioria assinou e entregou o recibo de transferência de propriedade dos veículos, mas Rodrigues não teve tempo de reconhecer todas as assinaturas no cartório de Altônia. O Detran exige a assinatura com firma reconhecida para fazer a transferência dos carros. Os donos de 130 carros comprados em Altônia ingressaram na Justiça com pedido de anulação das transferências e busca e apreensão dos veículos, mas o juiz indeferiu os pedidos para não prejudicar terceiros que tenham adquirido os carros de boa-fé.
O advogado das vítimas, Ari Pereira, de Maringá, recorreu ao Tribunal de Justiça. Segundo Pereira, as transferências foram feitas justamente para dificultar a apreensão dos carros. A Justiça de Altônia deferiu somente a apreensão de 10 carros que ainda estavam em nome dos proprietários, mas apenas dois foram recuperados. Os donos dos carros também registraram queixa na Delegacia contra Rodrigues, Wischral, o Tabelionato Macedo e o dono do estacionamento GuaíbaCar, Francisco Nilton Felix. Para as vítimas, Felix foi o mentor do golpe. A Guaíbacar adquiriu 90% dos carros e transferiu os documentos para nomes de funcionários e parentes. Ainda de acordo com o advogado, muitos carros adquiridos e pagos corretamente em Altônia antes do golpe, foram comprados pela GuaíbaCar e não por Rodrigues.
Fugitivo de Marília, interior de São Paulo, onde foi condenado por estelionato, Joni Rodrigues comprava e vendia carros desde 91 em Curitiba. Ele fez amizades no comando da Polícia Militar e financiava veículos para os policiais na capital. Ele também travou contato com PMs do interior e usou a amizade com a polícia para lesar centenas de pessoas, principalmente na região de Umuarama. Só em Altônia, mais de 50 pessoas foram lesadas em quase R$ 2 milhões. O corretor Pedro do Nascimento vendeu 11 carros dele e de terceiros e amarga um prejuízo de R$ 180 mil.
Segundo Ari Pereira, os golpistas prepararam o terreno para enganar tanta gente ao mesmo tempo. Joni Rodrigues comprava carros na região há mais de cinco anos e sempre pagou direito. Algumas pessoas venderam e ele honrou o compromisso. Por isso, desta vez tanta gente entrou de cabeça no negócio, explicou Pereira.





