Em 1956, conheci, e me tornei um grande, senão o melhor amigo de Álvaro Lázaro Godoy e Olavo Godoy, ao me contratarem como advogado da Associação de Lavradores do Norte do Paraná, recém-criada por eles e outros representantes do setor rural, em contraposição aos objetivos do também recém-criado Sindicato dos Colonos e Assalariados Agrícolas de Londrina.
Por ser parte da história de Londrina, vale lembrar que esse Sindicato aglutinou mais de 4.000 associados, tendo como finalidade imediata obter o salário mínimo e férias para os colonos, benefícios, na visão de Álvaro e Olavo, incompatíveis com o colonato. Os pioneiros temiam a extinção do sistema de colonato, que comprovadamente amparava não só a cafeicultura, como a família rural, dando-lhe a oportunidade de adquirirem a sua própria terra. E o fim do colonato acabou mesmo acontecendo.
Em 1958, Álvaro Godoy lidera mais um movimento em defesa da cafeicultura, a ‘‘Marcha da Produção’’ (18.10.58), que restou impedida de sair por força militar, e contra a qual resultaria infrutífera a propositura de um habeas corpus junto ao Supremo Tribunal Federal.
Os irmãos Godoy não descuidavam do que para eles sempre foi um verdadeiro santuário - a fazenda Santa Helena - depositária de seu amor à terra que desbravaram no machado e na foice, sem, no entanto, deixar de preservar outro santuário, hoje denominado Mata dos Godoy.
Convivi com Álvaro Godoy até o malsinado dia 25 de março de 1979, quando faleceu, diga-se, sem indagações e nem inquéritos policiais, tendo sido velado na Câmara Municipal, recebendo em merecida homenagem a visita continuada e o acompanhamento de numeroso grupo de amigos para o seu funeral.
Assim como, preso que se encontrava em uma cadeira de rodas nos seus últimos anos, vítima da queda de um cavalo, sempre esteve cercado de carinho e assistência - com certeza e seguramente - por Olavo, pela sua velha companheira Guiomar, pela Ernestina Medeiros, a ‘‘Fia’’, nascida e criada na Fazenda - mas que hoje também não mais lá se encontra, como tantos outros.
Nesses últimos anos, com ele participei de horas afáveis, em longas conversações na varanda de sua casa, nas tardes de quase toda semana, quando lá ia livremente e ouvia as passagens de sua vida, a história da nossa Londrina, relembrava fatos e pessoas, quando sempre aprendia com uma conversa inteligente, interessante, sempre agradável.
Álvaro tinha uma personalidade marcante, era ativo, de decisões firmes e sempre revestidas de grande seriedade, homem de grande respeito e sempre se fazendo respeitar, não se omitindo e nem se acomodando diante das soluções exigidas, seja na vida privada, seja de público.
Olavo Godoy, sentido e sofrido com a morte do irmão, dizia em entrevista à Folha, em 27 de março de 1979, que a morte de Álvaro deixara ‘‘um vácuo que não sabemos como preencher.’
Porém, Olavo o preencheu, e bem, com a mesma firmeza de caráter, de atitudes objetivas e claras, com o mesmo intensivo trabalho, a mesma seriedade no trato das coisas, determinado em sua conduta e seus propósitos, com a integridade imanente e peculiar dos Irmãos Godoy, sem preterir decisões, sem se omitir na vida privada e de público.
Infelizmente não pude participar da vida de Olavo, não pude levar minha companhia, o conforto da presença de um amigo em seus últimos tempos, por dificuldades que foram criadas às minhas visitas à fazenda Santa Helena, até, por final, impedindo-se de vez minha presença, restando ora render-lhe meu pleito de saudade.
Os irmãos Godoy administraram a fazenda com seriedade, muito trabalho e sacrifícios, implantaram e cultivaram extensos e florescentes cafezais, a paz das lavouras brancas e da pecuária, do enorme e variado pomar, e, com especial dedicação e carinho do jardim com as rosas ‘‘Príncipe Negro’’ especialmente encomendada à Roselândia.
Administração que desenvolviam juntos, com o respeito e com a amizade de seus empregados, que acima de tido tinham em Álvaro e Olavo seus amigos, aqueles que no momento da necessidade e da doença, sabiam que podiam com eles contar e confiar, fosse qual fosse a hora, como e por inúmertas vezes os acudiram, de madrugada e com chuva, trazendo-os para a Santa Casa.
E, naquela época, o acesso para a Fazenda não estava com moledo, que hoje permite entrar e sair dela sem qualquer dificuldade. Era terra vermelha mesmo, com atoleiros, derrapagens e grandes sacrifícios, mas, não podiam abandonar, deixar seus emrpegados doentes e sem assistência médica.
Não posso dizer que não tivemos algumas - inevitáveis - reclamações trabalhistas, mas o normal e quantas e inúmeras vezes vezes ao longo dos anos, o empregado que quisesse sair da Santa Helena vinha para o meu escritório com um bilhetinho do Sr. Álvaro e depois do Olavo e já com o cheque do Banco Itaú em meu nome para posterior endosso, pedindo para formalizar o acordo junto ao Sindicato, sem problemas, sem brigas, sem opressões, dentro da maior harmonia, pelo que muitos desses empregados voltavam a trabalhar para Álvaro e Olavo.
Hoje, deplore-se e lamente-se pelos empregados da Fazenda Santa Helena, que ao invés do respeito e da amizade que sempre tiveram, estão na imprensa, na televisão, na Justiça do Trabalho, no Ministério do Trabalho, no Promotor e até na Delegacia, pasme-se, reclamando não só de seus direitos trabalhistas, mas também de seus direitos humanos!
É, lamentavelmente o tempo passou, as pessoas mudaram, a administração mudou, os tratos se transformaram, frustraram-se princípios e normas de vida, como a destaca na reportagem da Folha de 24 de dezembro de 1996 sob o título Quem foi Olavo Godoy, e na qual se reporta a uma sua entrevista de 1990: ‘‘Cozinhei pele para beber o caldo. Foi assim que nunca me prendi a nenhuma instituição bancária’’, eis que pesa hoje sobre a Fazenda Santa Helena diversas penhoras por dívidas que estão sendo executadas no Fórum local.
Ressalve-se e se exclua dessa minha observação, qualquer conotação antiética do antigo advogado de 40 anos, alheio às origens dessas dívidas e execuções judiciais onde houve a penhora da Santa Helena, ações que hoje são de conhecimento público.
Certamente, tudo isso é lamentável, pesaroso, injusto para com Álvaro e Olavo, sobretudo para com este, que não pôde encontrar pelo menos as merecidas homenagens do grande número de amigos que certamente deixou, que não recebeu, na verdade, as merecidas homenagens que todos eles, todos nós, gostaríamos de ter-lhe prestado.
Tenha-se nesta manifestação o pesar de um amigo de Álvaro e Olavo Godoy, que apenas sente e se angustia de ver todos os seus sonhos e realizações estarem se derruindo, se deteriorando, sendo destruídos, de ver o nome Godoy aparecer na imprensa e na televisão como objeto de inquéritos policiais, etc., ao invés e como sempre o foi, apenas para ser enaltecido e receber encômios por ilibada e exemplar conduta.

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