São Paulo- A TV Globo transmitiu à 0h28 de ontem um vídeo com reivindicações do Primeiro Comando da Capital (PCC). Esta foi a condição imposta pela facção criminosa para não matar o repórter Guilherme Portanova, sequestrado sábado com um colega, o auxiliar técnico Alexandre Coelho Calado, na capital paulista.
O assistente foi libertado pela facção por volta das 22h30, perto da sede da TV Globo, com o DVD e as condições determinadas pelo PCC. Na gravação, com o rosto coberto com uma touca ninja, no estilo de terroristas da Al-Qaeda, umntegrante do PCC leu um texto com críticas ao sistema carcerário, particularmente ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
O PCC iniciou a ofensiva por volta das 8h do sábado. Dois homens sequestraram Portanova e Calado, que saíam da padaria União Fialense, na Avenida Luís Carlos Berrini, no Brooklin, zona sul da capital paulista. Eles tinham parado no local para tomar café da manhã, antes de iniciar uma reportagem.
O motorista Marco Antônio Felipe disse que estava na porta da padaria quando os criminosos saíram levando as vítimas pelo braço.
Segundo a polícia, os homens do PCC e os funcionários da Globo saíram da União Fialense num Vectra preto, achado queimado pouco depois na Avenida Portugal, na mesma região. ''Era um carro roubado. Havia boletim de ocorrência no 15º DP (Itaim-Bibi)'', disse o delegado do 96º DP (Brooklin), Dejair Rodrigues. Uma dupla de moto queimou o Vectra, e os ocupantes entraram num Gol com os reféns.
Às 22 horas foi encontrado o celular e o rádio de Portanova, jogados em uma rua de Santo Amaro. Também à noite, a polícia fez buscas em uma favela da zona sul, mas nada encontrou.
Ameaça - Depois da veiculação do vídeo, o diretor de Jornalismo da Globo, Luiz Cláudio Latgé, informou que os homens do PCC mantiveram Portanova e Calado juntos, encapuzados, num carro parado e depois numa casa de alvenaria. Por volta das 21 horas, os sequestradores colocaram Portanova num carro e Calado em outro. Solto logo depois, o técnico chegou, em pânico, à sede da emissora.
Latgé disse que nem Calado, funcionário da Globo há cinco meses, nem Portanova, contratado há oito meses, foram agredidos. O técnico serviu de portador da advertência do PCC: se a fita não fosse divulgada ainda ontem, o colega seria executado, como já aconteceu com jornalistas no Oriente Médio.
A Globo então divulgou as imagens, em 3 minutos e 36 segundos.
De acordo com o diretor, havia imagens adicionais que não foram ao ar - elas mostravam armas pesadas. ''Mas o texto com os pedidos da facção foi divulgado na íntegra.'' Latgé disse que a polícia participou das negociações envolvendo o sequestro, mas a decisão de transmitir o conteúdo do DVD foi tomada exclusivamente pela emissora. ''Foi muito rápido e a gente precisava dar uma resposta. Decidimos pela tentativa de preservar a vida de uma pessoa. Provavelmente a gente vai ter de discutir muito este assunto.''
A reportagem procurou o governador Cláudio Lembo na madrugada de ontem, tão logo a Globo levou ao ar o vídeo do PCC. Foi informado por sua assessoria de que Lembo já havia se recolhido e não comentaria o caso.

mockup