Globalização derruba empresas tradicionais
Há apenas 15 anos, Curitiba ainda ostentava vários grupos fortes, como a Refripar
e a Malas Ika. Eles acabaram, mas algumas pequenas empresas ainda resistem

Mauro Frasson
O jornalista Jamur Júnior recorda, com saudade, das empresas genuinamente paranaenses, para as quais fez as primeiras propagandas de televisão. Hoje, ele resiste ao avanço do computador e ainda escreve seus textos na velha máquinaA Tarobá colocava
TV’s com sua propaganda
na vitrine, porque poucos
tinham aparelhos em casa
‘‘Experimentei Coca-Cola
na década de 40. Tinha
gosto de xarope e
nunca mais tomei’’
Guilherme Pupo e
Israel Reinstein
Onde estão as empresas tradicionais de Curitiba? A pergunta é do jornalista e ex-apresentador de televisão Jamur Júnior, que nos anos 60 fez as primeiras propagandas para tevê para indústrias e lojas comerciais do Paraná. Sentado em frente à máquina de escrever, na redação do jornal O Estado do Paraná, Jamur, que ainda resiste ao computador, tenta lembrar quais eram as grandes marcas genuinamente regionais. Há 15 anos, Curitiba contava com grandes grupos - Hermes Macedo, Prósdocimo, Refripar, Ika, Labra e Batavo, entre diversas lojas - que dominavam o mercado. Hoje, essas empresas, entre outras, fecharam as portas ou foram compradas por outros grupos.
Quando Jamur iniciou sua carreira em televisão, no antigo Canal 12, fez locução das propagandas de lojas então tradicionais no mercado - Tarobá, Mazer e Bettega. ‘‘A Tarobá, que foi fundada em 1940 pelo Pedro Stier, foi a primeira loja a anunciar na tevê. Como nem todo mundo tinha televisão, ele colocou na vitrine da loja, onde hoje é o Garcez (na Boca Maldita), diversos televisores que passavam os comerciais’’, conta.
Outra empresa que adotava este mesmo tipo de propaganda era a Hermes Macedo. ‘‘A HM era o maior anunciante que existia no Paraná. Tanto que, quem tinha uma propaganda da loja, se sentia honrado, porque era um sinal de prestígio’’, recorda. A forte HM pediria falência no início desta década. Foi na HM que Jamur comprou a mobília de sua casa, produzida pela Movéis Cimo. ‘‘Todo mundo tinha produtos relacionados ao Estado, porque o paranaense se orgulhava em comprar o que era regional’’, conta. Por isso, Jamur teve também refrigeradores Prosdócimo, malas da Ika e viajou pela Auto Viação Nossa Senhora da Penha. Ele também comprava roupas na Casa Romeu e na Edith. Todas fecharam, com exceção da Edith, que ainda funciona no centro da cidade.
A Cimo, que era a principal fornecedora de cadeiras de cinema e carteiras de escola, fechou as portas na década de 70. A Ika também já deixou de fabricar malas. E a Penha foi comprada pela concorrente Itapemirim. ‘‘Todas são exemplos clássicos de empresas familiares que não conseguiram se sustentar por manter a mesma estrutura empresarial’’, avalia o consultor de empresas Renato Bernhoeft, especialista em sucessão de empresas. Segundo ele, elas não se profissionalizaram, mantendo em postos-chave membros da família sem experiência em gerência.
Mas o problema delas não fica restrito apenas à profissionalização. ‘‘O problema das empresas familiares é que elas apostam muito na tradição, mas hoje o mercado da cidade e do Estado não é apenas dos paranaenses, mas do paulista, do gaúcho e do catarinense, entre outros que migraram para cᒒ, avalia o diretor comercial da Hugo Cini, Ricardo Saltini.
O presidente da Associação Comercial do Paraná, Ardisson Akel, considera que a falta de investimento para capital de giro faz com que as empresas de médio e pequeno portes quebrem. ‘‘Parte do problema está associado à pouca oportunidade das empresas’’, diz.
Secos e molhadosPara o jornalista e médico João Dedeus Freitas Netto, 75 anos, um dos fatores que mais pesaram no desaparecimento de importantes marcas do Estado é a falta de tradição familiar. ‘‘Em alguns casos, os imigrantes que fundaram as empresas vieram de classes sociais mais baixas e desejavam ver seus filhos formados como doutores em Direito ou Medicina. Em outros casos, faltou instinto empresarial aos herdeiros’’, comenta.
Freitas Netto é um daqueles fiéis consumidores de produtos genuinamente paranaenses, como a gengibirra da Cini. ‘‘Experimentei Coca-Cola na década de 40, achei com gosto de xarope e nunca mais tomei. A gengibirra é um dos únicos refrigerantes que utilizam ingredientes naturais e tem até propriedades medicinais fornecidas pelo gengibre’’, diz.
Já para o professor aposentado de Teoria da Comunicação na UFPR, Hélio Puglielli, a passagem da Curitiba provinciana para a metrópole, nas últimas décadas, foi ‘‘mortal’’ para as pequenas empresas que trabalhavam com processo artesanal de produção. ‘‘É uma questão de escala. A urbanização desativa e liquida o comércio e a pequena indústria próprios para cidades de médio porte’’, explica.
Ele recorda os armazéns de secos e molhados, que ofereciam uma grande variedade (mas em pequena quantidade) de produtos e que foram ‘‘engolidos’’ pelas redes de supermercados. ‘‘Até meados da década de 60, não existiam supermercados. Os armazéns eram pitorescos, com balcão de madeira, e tinham um cheiro curioso, de queijo misturado com pó de café, já que as embalagens não eram hermeticamente fechadas.’’

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