Geriatra luta contra a imagem do idoso inviável
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 1997
Da Redação 
Londrina é uma cidade privilegiada no que diz respeito a quantidade e qualidade de programas e serviços de assistência aos idosos. Mas, mesmo assim, diz o geriatra e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcos Cabreira, poucos idosos são beneficiados pelos programas.
Membro da coordenação dos projetos interdisciplinares Terceira Idade do Hospital das Clínicas e do Atendimento ao Idoso do Parque Ouro Branco, ele afirma que os idosos da cidade, em sua maioria, continuam trancados em casa ou nos asilos vivendo a caricatura do idoso inviável, imposta pela própria sociedade.
Cabreira estima que atualmente cerca de 30 mil idosos vivam em Londrina. Um levantamento realizado, no ano passado, pelos serviços de assistência ao idoso, apontou que os programas atendiam a apenas 700. Entre os fatores sociais que alijam o idoso, o médico cita como exemplo a aposentadoria vergonhosa e o preconceito de que a idade elimina a capacidade produtiva da pessoa.
A maior doença do idoso brasileiro é a falta do que fazer, acredita. Ele ressalta que a capacidade produtiva do idoso não é igual à de um jovem, mas tem a mesma importância para a comunidade. Além de um patrimônio cultural, acumulado pela experiência de vida, o idoso pode contribuir em atividades específicas que exijam paciência, responsabilidade e preparo.
A falta de um sistema de saúde prventivo, que garanta a qualidade de vida do idoso, reforça ainda mais os preconceitos. A pessoa não se prepara para envelhecer com saúde e o sistema não a ajuda a manter a qualidade de vida, comenta o médico.
A relação família-idoso, segundo Cabreira, também é resultado dos preconceitos. Os familiares costumam encarar o idoso como um fardo e, quando dedicam atenção a ele é por pena ou caridade. Isso leva a exageros que beiram os maus-tratos. E como não há afetividade e respeito na relação, ela não preenche as necessidades do idoso, que se sente rejeitado.
Os projetos desenvolvidos pela UEL, observa Cabreira, têm buscado o resgate da autonomia do idoso através da recuperação de sua saúde física. O objetivo é dar condições de independência e estimular o idoso a melhorar sua qualidade de vida, criando seus próprios círculos de amizades. Cabreira defende ainda que as escolas contribuam para o fim dos preconceitos contra a velhice. Não podemos continuar vivendo como se nunca fôssemos envelhecer, afirma. Ele propõe aulas com os temas do envelhecimento e da valorização do idoso .
(Célia Baroni)


