Geraldo fabrica brinquedos e realiza sonho de infância
Érika Pelegrino
De Londrina
O lado duro da vida foi apresentado logo na infância para o garoto Geraldo, filho de lavradores, e seus sete irmãos. Nascido em Santa Maria (RS), logo nos primeiros anos de vida, partiu junto com a família para o interior de São Paulo. Aos sete anos, o pequeno Geraldo já trabalhava em lavouras de café. Sua vida não difere muito da vida de vários filhos de lavradores, de operários, de trabalhadores rurais.
Talvez a única diferença esteja no fato de Geraldo Geangeacomo ter preservado dentro de si a fantasia, o gosto pelo belo e o simples. Aos 64 anos, morando em Londrina há mais de 25 anos, o garoto nascido em Santa Maria e registrado em Bariri (SP), recorda sua trajetória e se diz satisfeito com a vida. Principalmente porque agora realiza um velho sonho, o de trabalhar para crianças. Geraldo fabrica e vende brinquedos de madeira.
O artesão lembra que durante 15 anos, ele deu duro em lavouras de café no interior de São Paulo e do Paraná. Aos 20 anos, conheceu Gerassina, filha de administrador de fazenda. Aos 23 anos casou-se e deixou as lavouras para seguir a profissão do sogro.
Talvez devido à infância perdida semeando café, Geraldo acalentava o sonho de fazer algum trabalho voltado para crianças. Mas enquanto a oportunidade não surgia, ele cuidava da propriedade do patrão. Passaram-se oito anos, os filhos nasceram - um menino e uma menina - e Geraldo deixou de ser administrador de fazenda para dedicar-se às plantas.
Era uma forma mais poética de ganhar a vida. Ele comprou uma caminhonete e saiu viajando pelo Paraná - nesta época, já morava em Londrina. Eu comprava e revendia plantas de todo tipo, lembra. Flores, árvores frutíferas e as mais variadas espécies passaram a ser o ganha-pão de Geraldo e sua família. Mas as plantas não eram simples mercadorias em suas mãos.
As flores, assim como qualquer mudinha, são seres vivos que precisam de atenção, conta. Sensível às necessidades de suas mercadorias, Geraldo oferecia a elas o alimento necessário, a água - que é a vida das plantas - e atenção, com uma boa conversa. Elas não falam, mas entendem tudo, acredita.
A dedicação fez com que Geraldo passasse a conhecer as particularidades de cada planta. Cada uma tem a sua natureza. É preciso entendê-las para trabalhar com elas, ensina. Tem aquelas que gostam de dormir, como a dama da noite, complementa.
As rosas são as preferidas de Geraldo. Para mim não há flor mais bela e mais importante, afirma. Elas estão presentes no nascimento e na morte das pessoas. Quando nasce um bebê é bonito dar um buquê de rosas para a mãe. Na morte, há muita tristeza e elas (as rosas) estão presentes, como se quisessem colocar um pouco de beleza naquele momento de tristeza e dor, reflete.
Apaixonado por rosas, ele as conhece bem e conta uma de suas particularidades: Quando uma rosa se abre, ela esta se mostrando para quem a olha. Se ela não recebe atenção, murcha e morre, garante. A dedicação de Geraldo não venceu a concorrência de mercado e depois de 25 anos ele vendeu a caminhonete e parou de trabalhar com plantas. Chegou um tempo em que eu não tirava quase nada, lembra.
Ficou seis meses parado, dedicando-se aos netos. Foi quando o velho sonho de fazer um trabalho voltado para crianças voltou à mente de Geraldo. Além de plantas, as crianças são outra paixão do artesão. Ele ficou matutando e um dia resolveu fazer um brinquedo para o neto Gabriel, de dois anos.
Eu queria fazer um cavalinho de balanço. Fiz vários desenhos para servirem de molde. Depois de estragar muito papel cheguei ao modelo que eu queria, conta. Com esta brincadeira Geraldo descobriu uma forma de realizar seu sonho: fabricar e vender brinquedos de madeira. Passei a vida toda tentado encontrar um jeito de trabalhar com crianças e descobri depois de velho, brinca.
Depois de pronto, o primeiro cavalinho passou no teste: foi aprovado pelo pequeno Gabriel. As pessoas viam o brinquedo e se interessavam, orgulha-se. Geraldo começou a passear pela cidade com o cavalinho a tiracolo. Fico no calçadão, mostro o brinquedo e recebo as encomendas, conta.
O trabalho é simples e artesanal, só que como diz Geraldo, depende muito de paciência e de amor: Se a pessoa não tiver estas virtudes dentro dela, não sai nada.
Ele compra a madeira bruta e leva para o fundo do quintal de sua casa, na Rua Grande do Sul (centro de Londrina). Com uma serra fita, começa a dar forma ao seu sonho. Cortar a madeira é o trabalho mais rápido. Montar é a parte artesanal do serviço, leva uns dois dias, comenta. Por isso eu vendo por R$ 60,00, mas a gente sempre pode negociar.
Detalhista, ele quer melhorar mais ainda os brinquedos que cria. Depois de pronto, fico olhando e descubro que o casco pode ser diferente, a boca pode ser melhorada, afirma. Geraldo quer perfeição, afinal é o seu antigo sonho que está sendo realizado.
Perfil
Nome: Geraldo Geangeacomo
Idade: 64 anos
Trabalho: faz brinquedos de madeira
Característica: amor às crianças e às plantas





